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UNI7 NO CENTRO: Dor e saudade abrem espaços para novos laços afetivos

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As lembranças da infância, brincando com os irmãos no cemitério, ainda são presentes na vida adulta de Marilene

O Cemitério São João Batista se destaca pelo valor histórico e o esplendor. Localizado em Fortaleza, no bairro Jacarecanga, foi fundado ainda no século XIX. O campo-santo é repouso de grandes personalidades da cena cearense e da população da cidade. E, em meio a jazigos e o silêncio, Marilene Carvalho de Moraes, 48, zeladora do cemitério, transforma a paisagem com seu carisma e ofício.

Marilene, que prefere ser chamada de “Marlene”, retrata como o cemitério está essencialmente ligado às suas memórias de criança. “Luís Morais, meu pai, foi coveiro aqui por muitos anos. Quando ele vinha trabalhar, me trazia junto com meus irmãos, pois não havia com que nos deixar”.

Luís Morais iniciou seu ofício ainda na juventude. “Era homem solteiro quando começou a trabalhar como coveiro. Era jovem e saiu daqui com a cabeça bem branquinha. Aposentado e, com a idade avançada, ficou doente. Dessa doença, meu pai se foi”, lembra.

Em meio ao ambiente de dor e saudade, Marlene transforma a paisagem com seu trabalho e dedicação (Foto: Paulo Paulo Roosevelt)

Em consequência das dificuldades financeiras para criar os três filhos, Marlene recorreu ao cemitério. “Estava desempregada, tinha três filhos para criar. Como já andava aqui pelo São João Batista, então passei a trabalhar como zeladora de algumas covas”. Resultado dessa ação, já se somam 30 anos de profissão. Dos esforços que sua atividade exige, Marlene recorda as melhorias nas atividades diárias. “Antigamente, eu carregava ‘água na cabeça’. Agora temos carrinho de mão para facilitar nosso trabalho”, frisa.

A manutenção dos jazigos é feita durante o ano inteiro. “Arranco os galhos ressecados, varro o local por completo, lavo as capelas, ponho flores. Quando o familiar vem visitar seu ente querido, está tudo limpinho e organizado”. Marlene também esclarece que o pagamento é mensal. “Tenho anotado o endereço e telefone, quando chega o dia do pagamento, vou pegar na casa do cliente”.

HISTÓRIAS DE VIDAS QUE SE CRUZAM

Entre um crochê e outro, Maria José Lima Ribeiro, 78, professora aposentada, passa o tempo a contemplar o jazigo da família. “João Santos Ribeiro, meu marido, faleceu de um infarto no dia 26 de abril de 2016. No dia seguinte, começou minha história aqui no cemitério”, recorda.

Além de uma boa conversa com os amigos que fez no cemitério, Mazé se distrai com a atividade do crochê (Foto: Paulo Paulo Roosevelt)

Ainda na juventude, ‘Mazé’, como é chamada, revela que sua família não aprovou o seu casamento. “Mesmo com todos impedimentos, casei e fui muito feliz. Se estou aqui há dois anos, todos os dias, é porque sou muito feliz. Ele foi meu marido, foi tudo na minha vida. E todo dia eu venho”.

“Aqui no cemitério São João Batista, eu construí uma família” – Mazé

A viúva frequenta o cemitério de domingo a domingo. Ela explica: “Em primeiro lugar, aqui consigo ficar perto do meu marido e, em segundo, é a família que encontrei aqui nesse local. São pessoas humildes, no entanto, gente brilhante. Nos recortes de sua memória, Mazé descreve como conheceu a faxineira. “Conheci Marlene no cemitério. Uma pessoa cordial. Sempre me dando bom dia, boa tarde”, reconhece.

Mazé diz que Marlene tem um lugar garantido no jazigo da família (Foto: Paulo Paulo Roosevelt)

Um simples gesto de simpatia e atenção fez nascer uma amizade. Mazé nesse período de convivência no cemitério, diz ter construído laços afetivos. “Em vida, meu esposo tinha muita vontade de fazer algumas alterações neste espaço. Então, fiz doações. Essa rua, onde se encontra o nosso jazigo, era toda de areia fofa. Agora possui uma calçada de concreto. Temos também bancos para sentar, flori o espaço com 21 pés de palmeiras e, coloquei um corrimão para auxiliar a descida e subida dos funcionários, cadeirantes, o público em geral”, salienta.

LINK: http://www.santacasace.org.br/

O Cemitério São João Batista foi fundado em 1872, substituindo o antigo cemitério São Casimiro. O local é administrado pela Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza e, faz parte do Complexo Santa Casa. Gestão que comporta outras instituições: Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo e a Casa de Saúde Eduardo Salgado.

TEXTO: Fátima Belarmino (3° semestre – Jornalismo/UNI7)
FOTOS: Paulo Roosevelt

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