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SOCIEDADE E PANDEMIA: Mudanças comportamentais na sociedade brasileira pós-Covid 19

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As diversas transformações que passam pela política, pela economia, pelos modelos de negócios, pelas relações sociais, pela educação e pela cultura

As primeiras infecções ocasionadas pelo coronavírus foram relatadas, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Wuhan, China, em 17 de novembro de 2019. Em 23 de janeiro de 2020, 11 milhões de habitantes daquela cidade passaram a viver o primeiro lockdown, um rigoroso bloqueio que visava controlar a alta propagação do vírus.

Nas semanas seguintes, a situação se repetiria em diversos países por todos os continentes, chegando ao Brasil em 24 de fevereiro durante o carnaval. Em 15 de março, a Secretária de Saúde do Ceará (Sesa) oficializou seus primeiros casos. A partir deste momento, medidas restritivas seriam adotadas de forma sistemática, alterando drasticamente a rotina, o convívio social e as interações entre os indivíduos.

A pandemia, de fato, mudou a rotina de todos. Parentes e amigos foram afastados e não puderam mais interagir em atividades presenciais e em atividades de lazer. Estudantes tiveram que se adaptar e passaram a estudar por meio de chamadas de vídeo. Empresas, que tinham possibilidades, adotaram o modelo Home Office. Os shows presenciais foram substituídos por lives, as compras por delivery se tornaram mais presentes no cotidiano das pessoas, os negócios foram remodelados para atender às novas necessidades. 

A abrupta necessidade de adequação acelerou várias mudanças estruturais que estavam em curso. Junto a isso, foi percebida uma grande mudança comportamental e das interações sociais. A doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Política, Educação e Cidade (LEPEC), também da UFC, Danyelle Nilin Gonçalves diz que a pandemia interfere nas interações, pois as pessoas estão, há um longo tempo, impossibilitadas de se relacionar, principalmente aquela parcela da sociedade que realmente está cumprindo as medidas restritivas. Ela acredita, também, que, por conta dessas mudanças, “uma grande parcela da sociedade terá que reaprender algumas coisas, como: interagir novamente em lugares públicos. Com isso, acreditamos que ocorrerá um grande aprendizado no pós-pandemia.”

Para estimular a sociedade no cumprimento das restrições necessárias para o combate ao vírus, surgiram movimentos popularmente intitulados de “Fique em Casa”, que têm o intuito de estimular os cidadãos a cumprirem as metas de contenção indicadas pelo governo. Essas campanhas foram muito exploradas pela mídia e pelas redes sociais. A socióloga Danyelle Nilin diz que “o movimento ‘Fique em Casa’ é importante, mas nós sabemos que uma parte da população brasileira nunca pôde, efetivamente, ficar em casa e dessa maneira acabou surgindo um outro movimento, o ‘Fique em Casa se Puder’, se encaixando na realidade dos brasileiros que precisavam trabalhar.” Além disso, por diversas vezes, houve denúncias de aglomerações, mostrando que tais iniciativas não estavam alcançando o objetivo proposto. A pesquisadora esclarece que a causa dessa situação foi o desconhecimento de como o vírus agia, na primeira fase, “pois as pessoas não sabiam se ao ser infectado uma vez, haveria uma reinfecção e a desinformação acabava gerando uma aglomeração de pessoas, pois achavam que não poderiam se infectar de novo.” 

Foto: Acervo Pessoal

Para Danyelle, um dos principais motivos, que contribuiu com a banalização do vírus na sociedade brasileira, tem sido a falta de um discurso político alinhado ao discurso da ciência e o negacionismo por parte da maior autoridade do país. Para a pesquisadora da UFC, o fato é que a morte não parece para nós, brasileiros, tão absurda, visto que vivemos em um país com altos índices de violência. “De certa forma, esses altos números de mortes, em decorrência ao coronavírus, passaram a se naturalizar. É impressionante como no início de 2020, quando na Itália começou o grande número de mortes por dia, por causa da Covid-19, nós ficamos impressionados com a quantidade, mas quando chegou aqui (no Brasil) e o número foi bem maior, foi desenvolvendo uma tendência à banalização e não ficamos mais impressionados com os números que só iam aumentando. Então, o fato de ser uma pandemia de médio e de longo prazo também contribui para isso, as mortes já não chamam tanto a atenção. Em um determinado momento, pela duração da pandemia, as pessoas ficam cansadas de ficar em casa e começam a se arriscar, o que é um grande problema.” Complementou a professora

Além de propagar as campanhas “Fique em casa” e “Fique em casa, se puder”, as redes sociais, também, abriram um espaço para discussão de diversas pautas sociais. A socióloga Danyelle Nilin destaca que a pauta social, relacionada à pandemia, que teve, e ainda tem maior repercussão, foi a necessidade de uma renda básica para que as pessoas fiquem menos desprovidas em momento de crise. Uma outra grande discussão, que está atrelada a essa, é a questão da necessidade de taxar as grandes fortunas. Aqui no Brasil, complementou a professora, “a esquerda defende isso, mas o grosso da população ainda não está, plenamente, convencido”. Para a pesquisadora em Ciências Sociais, pode ser que essa discussão continue no pós-pandemia, ou seja, a necessidade de taxar grandes fortunas para tentar reduzir as desigualdades sociais. Outra temática enfatizada pela professora é a defesa do Sistema Único de Saúde (Sus).

A crise sanitária escancarou a desigualdade social, fez a economia ruir e a taxa de desemprego bateu recorde chegando a 14,7%, pior índice desde 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A inflação descontrolada reduziu o poder de compra da população. A Organização das Nações Unidas (ONU) relatou que o Brasil retornou ao mapa da fome, onde não figurava desde 2014. A doutora explica que o país vinha em uma crise econômica crescente desde 2015 e as políticas sociais, aplicadas na gestão da pandemia, se mostraram insuficientes, agravando a situação de uma sociedade caracterizada pela desigualdade. Ela ressalta que a população carente foi a mais atingida e que as discrepâncias sociais vão além do desemprego e da renda precária, “pois se a gente parar para pensar notaremos que na questão educacional, os mais pobres ficaram mais desprotegidos, sem ter acesso às aulas remotas e, inclusive, aos equipamentos para usufruir dessas aulas. Uma outra questão é o acesso à saúde ou, até mesmo, às medidas de higiene básica, como lavar as mãos, usar a máscara e usar o álcool em gel, ficando perceptível a exclusão, parcial ou completa, de uma grande parte da sociedade, agravando mais a desigualdade na estrutura social.” 

O Brasil vive um período de grandes alterações políticas, sociais e culturais, tornando, assim, este momento uma grande oportunidade para que a sociedade revise as crenças e os valores que ditam seu curso. Neste momento pandêmico, é possível ver muitas mobilizações em favor dos mais necessitados e grandes atos visando a arrecadação de alimentos e de fundos em prol de causas sociais, principalmente por parte de artistas e de empresas. No entanto, muitas pessoas “comuns” têm desenvolvido ações individuais com o intuito de ajudar vizinhos, pequenos comércios de sua região, projetos sociais locais etc. A pesquisadora do comportamento humano Danyelle Nilin, considera importante os atos realizados pelas ONG e pela sociedade civil organizada, pois sem estas ações a situação da fome no país seria ainda pior. Quanto as ações individuais, ela acredita que quem já era organizado, quem já tinha pré-disposição para fazer atividades solidárias e quem já entendia a necessidade de ajudar grupos menos favorecido continua e, provavelmente, continuará depois da pandemia. Segundo ela,  não se pode afirmar que este momento seja um ‘despertar’ da sociedade brasileira no agir coletivamente em prol dos mais necessitados.  “Podemos dizer que a pandemia trouxe, à tona, várias discussões, como a necessidade de reduzir as desigualdades e de criar uma renda básica para as pessoas”. Essas discussões, segundo a socióloga, reacendeu a discussão política sobre a necessidade de programas assistenciais, iniciativas governamentais que podem ser encaradas como mudanças efetivas.

Desde o início do surto do vírus, a ideia, de que as pessoas “não sairiam as mesmas” da pandemia, foi muito repercutida. A cientista política e educacional Danyelle Nilin Gonçalves acredita nessa ideia, mas esclarece que “não seremos mais os mesmos, não por uma postura romântica de que as pessoas serão melhores, mas sim, porque teremos mais de 500 mil mortos após a pandemia e um número assim, socialmente falando, causa um grande luto”.  Ela defende que, ao fim da pandemia, se conseguirmos refletir sobre tudo o que vivemos – o negacionismo, a banalização da vida, a falta de respeito pelos cientistas, o negacionismo de autoridades políticas – poderemos avançar. Todavia, finaliza dizendo que, “do ponto de vista de alguém que perdeu um ente querido, a vida não será mais como antes. Têm famílias destruídas e essas pessoas vão sentir muita diferença. Nesse sentido, a vida também mudará na questão de utilização de coisas que não tínhamos pré-pandemia, como: o home office mais institucionalizado e o uso mais acentuado das redes. Ocorrerá um certo medo das aglomerações a princípio, então vamos precisar reaprender muitas coisas, pois a vida não vai voltar exatamente como era antes.” 

Texto: Rayssa Paloma e Rafael Oliveira (Jornalismo / Uni7)

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