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JORNALISMO E PANDEMIA: DESAFIOS DO JORNALISTA EM ÉPOCA DE PANDEMIA

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Os desafios de realizar coberturas jornalísticas durante a pandemia da Covid-19 no Ceará para repórteres de rua.

Um artigo publicado no The Lancet, considerada a revista científica de maior relevância no mundo, aponta que o primeiro paciente com sintomas da Covid-19 teria sido identificado em 1º de dezembro de 2019. Desde então, o mundo mudou. Os costumes mudaram. A sociedade precisou se reinventar para sobreviver e não apenas viver. Salvar outras vidas, passar informações verdadeiras, educar de forma diferenciada e adaptar uma sociedade a novos costumes, passaram a ser as propostas dos governantes.

Nesse contexto, várias profissões tiveram que se readaptar e desenvolver novas estratégias para conciliar as produções diárias com a dor e o sofrimento de ver a cada dia, o número de mortos aumentando em todo o mundo. Tratando-se dos profissionais de jornalismo, muitas coisas tiveram de ser mudadas para essa nova forma de trazer informações com qualidade. A adaptação teve que ser rápida, todos os dias surgiam novos avanços do vírus, muitas incertezas, e era necessário que as pessoas soubessem o que estava acontecendo. O trabalho jornalístico foi, e é ,fundamental para esse processo. Os meios de comunicação entraram para a história ao caminhar juntos na busca de trazer dados sobre a doença, esclarecer sobre fatos obscuros e levar ao público receptor informações diárias e esclarecedoras. O fazer jornalístico se reinventou e precisou caminhar por alguns estágios para fazer valer o seu papel social. Combater as fake news e trazer para o mundo o que realmente estava acontecendo tornou-se o ponto principal dessa profissão. 

O Brasil traz uma estatística ruim no cenário mundial de comunicação. O Jornalismo brasileiro caiu quatro posições no ranking geral da liberdade de imprensa. No relatório de 2021, divulgado pela ONG Repórteres sem Fronteiras, é destacado ataques do presidente Jair Bolsonaro contra jornalistas. O Brasil está na chamada parcela vermelha – países onde a situação da imprensa é considerada difícil – e a um passo de entrar no pior nível da liberdade de imprensa, a preta. Além disso, o país caminha com dificuldades na luta contra o vírus, com quase 500 mil mortes, o trabalho jornalístico se torna um dos principais meios para o combate à doença. 

Em todo o país, a categoria vem enfrentando grandes desafios, desde o começo da pandemia. Muitos se expõem ao risco de trabalhar nas ruas, levando notícias, buscando informações, ao mesmo tempo que sofrem acusações de semear o pânico quando apenas tentam conscientizar a população sobre os cuidados diários que todos devem ter com relação à Covid 19. 

No Ceará, não foi diferente. Um levantamento sobre o trabalho e os desafios dos jornalistas durante a pandemia, realizado pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), mostrou as grandes mudanças que ocorreram neste ambiente de trabalho. O acesso para entrevistas, a busca pelas notícias nos hospitais, a produção de informações diárias e a busca pela verdade, fizeram dessa profissão, durante a pandemia, uma das mais relevantes no cenário nacional. 

Para explicar melhor o dia a dia de um trabalho jornalístico, produzimos uma entrevista com Juliana Brito, 36, jornalista que atua na cobertura contra a Covid-19 no estado do Ceará. 

Repórter: Juliana Britto. Repórter da TV JANGADEIRO. Foto: Arquivo pessoal. 

Equipe: A pandemia teve início em 2020. No começo tudo estava meio obscuro. O vírus era novo, ninguém conhecia a sua origem e nem a sua complexidade. Como foi fazer jornalismo de rua neste início? 

Juliana Britto:”Quando a pandemia começou, as informações eram muito escassas, porque o vírus era novo, ninguém sabia as consequências dele no organismo, de que forma poderia acontecer a transmissão. No início a gente não usava máscara (EPI), foi um período bem tenso, acho que pra todo mundo, principalmente pra gente que trabalha todo dia na rua. Eu particularmente tive uma crise de ansiedade muito forte, não conseguia dormir, eu não queria trabalhar, mas não podia deixar de trabalhar, eu tinha receio de contaminar meu familiares. Na época eu era casada e ter contato com meu marido e com a minha filha que tinha menos de três anos, eu tinha muito medo, muito medo mesmo de me contaminar e contaminar as pessoas da minha casa. Então fiquei sem ver meus pais, meu irmãos, sem ver meus familiares. Eu ficava muito angustiada, por essas incertezas, vários segmentos puderam trabalhar home office, o que não aconteceu com a gente, a empresa começou a se adaptar, colocar pias para que pudéssemos lavar as mãos na entrada da empresa, comprou álcool em gel, começaram a fazer o rodízio, depois que a primeira onda ficou bem mais forte e o número de contaminados começou a crescer. Nesse rodízio, a gente ficava três dias em casa na semana, fazendo participações ao vivo pela internet, aí entra a tecnologia no auxílio ao dia dia do jornalismo durante a pandemia, fazíamos pelo skype, pelo zoom, no escritório de casa, ou em qualquer local da casa, com informações que a produção nos passava, e também fechava matérias de casa, gravando off pelo celular, fazendo passagem em casa, e recebendo vídeos de entrevistas das fontes, ou de personagens, ficou acho que uns dois, três meses trabalhando assim, e aí começaram a aparecer os primeiros casos nas empresas, aí aquele medo aumentou. Eu me lembro que o ministério da cidadania, liberou a redução salarial e redução da carga horária, então a gente passou a trabalhar quatro horas, no lugar de seis horas por dia. A redução de 25% no salário mexeu muito com a gente, sabendo que era uma medida da economia em geral, mas foi um momento em que a gente precisou de bastante equilíbrio emocional. Eu entrei num programa de ajuda psicológica gratuito para atender pessoa que estavam na linha de frente da pandemia, a gente não tava como o pessoal da saúde, mas estamos o tempo todo na frente dos hospitais, entrevistando políticos, entrevistando o secretário de saúde, aí o que acontecia, a gente entrevistava num dia e no outro dia surgia um positivo e algum político e aí ficava todo mundo aflito, pensando quem pegou e quem não pegou.” 

Equipe: O jornalismo sempre teve um papel muito importante na sociedade. Para você, qual era a principal função do Jornalismo nesse começo de pandemia?

Juliana Britto: “No começo da pandemia, eu acho que a função do jornalismo era assim como sempre foi, mostrar a realidade dos fatos. As pessoas no início desacreditaram muito do vírus, quando começaram os primeiros casos na China ninguém esperava que chegaria aqui, que se espalharia pelo mundo todo. Eu me lembro que em 2019 eu cheguei a fazer matérias com empresários que tinham negócios na China, como que estava sendo o dia a dia dos funcionários deles lá. Eles contaram do lockdown do toque de recolher, e aquilo tudo era muito surreal pra mim naquela época antes de 2020, e quando a pandemia estourou aqui,e a gente fazia matérias nas praias por exemplo, uma vez um ambulante me abordou dizendo que a culpa era nossa, a culpa era da mídia, que a gente que estava inventando tudo aquilo, e isso dava um pouco de revolta, porque a gente é muito atacado por pessoas que não tem muito instrução. Como no Ceará estourou primeiro do que outros estados aqui do nordeste, a gente fazia muita participação, pro jornal do Piauí por exemplo, gravava bastante simulação de ao vivo pra eles, com as informações, foi bem movimentado esse início. A gente também fazia para o nacional, para mostrar como estava o crescimento dos casos aqui.” 

Equipe: Qual foi o maior desafio para cumprir essa função? Levando em conta que vivemos na época da fake news e o governo do país se mostra diretamente contra o trabalho dos jornalistas. 

Juliana Britto:“O principal desafio, além de estar na rua e saber que a qualquer momento a gente podia ser contaminado, era lidar com esses questionamentos da população, em saber se o que a gente tava falando era verdade, se realmente os dados eram só aquele ou se a prefeitura o governo estava omitindo os dados do crescimentos, e pra mim esses foram os principais desafios, levando em conta que tivemos na época da fake news e o governo do país se mostrava contra o trabalho dos jornalistas. Sobre essas questões que envolvem o Presidente, era muito comentada entre a gente, repórteres, cinegrafistas e produtores, sobre as coisas que ele fazia, as declarações que ele dava, o maltrato aos profissionais de imprensa, era sempre muito comentado. Sobre as questões da Fake news, a gente tentava sempre balizar as matérias com os profissionais da saúde, com gente da área técnica que pudesse explicar, qualquer dúvida que surgisse entre a população, quando vieram as primeiras notícias da vacina, a gente procurava sempre fontes seguras e até nacionais para colocar nos telejornais, uma coisa que a gente fazia muito era aproveitar as entrevistas que eram feitas em coletivas nacionais com o ministro da saúde e de todos os órgãos que estavam envolvidos no combate ao coronavírus, por meio do instagram ou pelo youtube.” 

Equipe: O jornalista é exposto diariamente aos riscos da doença. Você foi afetada de alguma maneira? Levando isso em consideração, você pensou em recuar na profissão? 

Juliana Britto: “Quando veio o uso da máscara, deu aquela sensação maior de segurança, mas a gente sabia que não era ainda 100%, porque vários colegas começaram a se contaminar com o vírus. Quando começaram os exames drive thru no HGF, na Praça do Ferreira, a gente tinha que ter contato com o povo, a gente tinha que tá lá pra escrever a matéria, não tinha como a gente ficar ileso disso. Então a gente se arriscava mesmo, sabendo que poderia estar entrevistando gente com risco de estar infectado, e todo mundo tinha muito medo de ser contaminado e contaminar os familiares. Mas em nenhum momento eu pensei em recuar, eu ficava temerosa, mas com a fé em Deus a gente ia lá todo dia. Na primeira onda eu passei super bem, apesar dos riscos não fui contaminada, só que esse ano no final de fevereiro meu pai foi contaminado e eu tive que levá-lo pro hospital e acabei pegando do meu pai. Não fui internada, mas fiquei bem debilitada tendo que retornar várias vezes ao hospital, e como no começo eu não sabia que estava infectada, pelo atraso dos sintomas, acabei indo trabalhar uns dois dias e sem saber acabei infectando o cinegrafista que trabalha comigo e ele tem comorbidades. Ele ficou em estado grave e eu fiquei desesperada, ele ficou internado na UTI, quase foi entubado, mas graças a Deus ele conseguiu vencer a covid, fizemos matéria quando ele voltou, com o reencontro dele com a família, foi bem emocionante. Sobre esse lado humano da pandemia, a gente acompanhou muitos casos de pessoas que conseguiram vencer a covid, histórias cheias de milagres, pessoas que passaram 90 dias internadas e saíram de lá com a vida, por outro lado também contamos histórias tristes, como o de uma mulher que em um intervalo de 13 dias perdeu pai, mãe, irmão e marido para covid, a gente chorava junto quando elas contavam, mas a gente tem que passar por esse lado também na profissão.”

Equipe: Como foi levado o seu trabalho no começo da pandemia e como ele é hoje? (por exemplo: se você trabalha somente dentro da emissora ou se você ia mais pra rua, como isso impactou nas suas coberturas jornalísticas) 

Juliana Britto: “A empresa viu que não dava pra fechar o jornal dessa forma, mas foram aparecendo outras medidas de prevenção, a gente começou a higienizar bem os equipamentos, começou a utilizar 2 microfones, um pro reporter outro pros entrevistados, trocando de máscaras, e hoje como a ciência já avançou mais, as informações são mais precisas, a gente já voltou a trabalhar quase normalmente, mas a gente não pode entrar em todos os hospitais. A respeito de trabalhar na rua, mesmo no início a gente continuou na rua mesmo, foi só um curto período que a gente ficou interno e também em home office. E eu acho que não impactou na cobertura jornalística, eu acho que foi mais uma readaptação do que o cenário tava pedindo, a gente conseguiu fazer bem o papel do jornalismo mesmo a distância.” 

Equipe: Vivemos épocas de lockdown, onde uma parte da população tinha sim condições de ficar em casa, mas outra parte não, pois precisava trazer sustento para família. O jornalista tinha o dever de combater também esses casos, mostrando tudo. Isso de uma certa forma mexeu com você? 

Juliana Britto:“Essa parte foi um desafio muito grande, porque a gente sabia que por exemplo, os feirantes da José Avelino, eles estavam ali trabalhando, sem a autorização da prefeitura e do governo, estavam ali pra não morrer de fome, mas a gente tinha que mostrar, a gente tinha que dizer que eles estavam errados de uma certa forma, mostrar a versão deles também, mas a gente no início foi muito hostilizado, eu lembro que uma vez a gente foi fazer a matéria e ficou de longe porque sabia se ficasse perto podia ter conflito, e mesmo a gente em cima do viaduto da leste oeste, eles começaram a jogar objetos na gente, dizendo palavras que não eram tão legais, dizendo que gente deixasse eles trabalhar, que a gente não era bem vindo ali, foi bem difícil. Outra vez em uma feira livre de verduras, frutas, que foi da mesma forma, ninguém quis dar entrevista, ninguém quis falar, mas a gente sempre tem o cuidado de mostrar os dois lado, a gente fala do decreto do que não é permitido, mas a gente também mostra a necessidade deles de levar comida pra casa e pagar contas. A gente também foi muito na periferia pra contar com que estava as condições, daquela população mais pobre que estavam perdendo os empregos, ou algum bico porque estava tudo fechado, a gente mostrava a situação dessas pessoas, pedimos ajuda e muitas vezes conseguimos. Começamos a encontrar formas de fazer esse tipo de matéria sem sair de dentro do carro, a gente pegava vídeos de denúncias da população que mandavam pelo nosso whatsapp e a gente filmava também de dentro do carro com celular, entrevistava com o celular alguém quando estávamos passando, isso para evitar o contato mais próximo com eles e não haver conflito, a gente também quando ia tentava sempre ter o acompanhamento da guarda municipal ou da polícia, dos fiscais da agefis que estavam sempre lá atuando, mas foram reportagens bem tensas, e também não só dos que estavam trabalhando, por exemplo na beira mar, quando as pessoas estavam fazendo atividades físicas e não iam de máscara, tudo isso a gente tinha que mostrar e as pessoas se chateavam, porque estavam fazendo coisa errada, mas não queriam aparecer na TV fazendo coisa errada.”

Juliana também nos responde sobre os ensinamentos que essa pandemia trouxe para ela: 

Juliana Britto:“posso dizer que a gente sai muito modificado, muito transformado dessa situação que a gente viveu, de não poder abraçar, não poder visitar, parentes, amigos, tivemos que aprender a fazer muita coisa de forma virtual, conviver com perdas, posso dizer que a gente sai muito transformado e muito mais humano, olhando pra dor do outro. Acho que o jornalismo é isso, se colocar no lugar do outro, você não consegue contar direito aquilo que você não experimenta, aquilo que você não vivencia de perto, com os próprios olhos. Eu tentava me colocar na situação naquelas que foram morar na rua, por perder o emprego e não tinham dinheiro pra pagar o aluguel, aumentou muito a população de rua nesta pandemia, então sempre tentava me colocar no lugar deles pra contar a história.’’

Texto: Aline Santiago, Hugo Eduardo e Jefter Neri (Jornalismo / UNI7)

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