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Ginástica rítmica: encantamento e resiliência em forma de arte

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Atletas falam de vitórias não contempladas com medalhas, mas sim com qualidade de vida, e mostram a beleza da disciplina

Texto: Lívia Magalhães (5° semestre/UNI7)

Aos seis anos de idade, Maria Clara Machado levou uma queda na escola e machucou o punho. Algo que deveria ser um breve contratempo comum na vida de qualquer criança se tornou um fardo por dores recorrentes no local que pareciam não a abandonar. Após alguns meses com essa perturbação e uma bateria de exames, o diagnóstico de leucemia surpreendeu a família e trouxe para a menina uma nova forma de ver a vida.

Leucemia consiste em um tipo de câncer que ocorre na formação das células sanguíneas, fazendo com que sofram uma mutação genética e se tornem cancerosas. “Desde a descoberta [da doença] até a minha cura aprendi muita coisa. Aprendi a ser forte onde não tinha mais força, aprendi a ser grata onde aparentemente não tinha gratidão. Eu tive que me tornar mais madura”, diz a atleta. Depois de passar por essa complicação, mesmo com pouca idade, tenacidade e resiliência são aptidões que não faltam na própria rotina de Maria Clara.

Ginasta Maria Clara Machado em apresentação de série com bola / Imagem: Arquivo pessoal

Curada, aos 13 anos de idade, a menina que sempre esbanja um sorriso afirma que suas expectativas de vida mudaram completamente depois que a ginástica rítmica cruzou seu caminho. “A cura do meu câncer abriu uma chave nova na minha cabeça de fortalecimento pessoal. Mesmo com muitas dificuldades, mesmo com risco de vida, eu nunca desisti. Apesar de pequena me fortaleci, e isso me ajuda muito na ginástica”.

ENTENDA SOBRE O ESPORTE
Segundo documento descritivo da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), a ginástica rítmica é um esporte que combina elementos da dança tradicional e da ginástica artística comumente fazendo uso de cinco aparelhos: fita, arco, bola, maças e corda. Há peso, tamanho e materiais específicos para cada aparelho, sendo os mesmos conferidos pelos árbitros antes das competições. 

O documento disponível no site do Comité Olímpico do Brasil informa que “Desde a entrada da Ginástica Rítmica nos Jogos Olímpicos, em 1984, o Brasil tem conseguido participar na maioria das edições, inclusive alcançando as finais”.

Por ser uma modalidade que exige intensidade do corpo, não apenas na execução de truques impressionantes, mas flexibilidade e habilidade do manuseio de aparelhos, os treinos possuem a necessidade de ser mais extensos.

Em preparo para a Copa Lapidando Diamantes nos dias 17 a 19 de maio, a presença de Maria Clara no Instituto Barbara Palomares – local onde pratica o esporte – é de no mínimo quatro vezes por semana em treinos com aproximadamente três horas de duração. “A ginástica é um esporte de beleza, é um esporte difícil. Exige muitos treinos, aos sábados e se duvidar até aos domingos. Então ter disciplina é a chave”, afirma a ginasta.

A Copa Lapidando Diamantes é uma inciativa do próprio instituto e possui o intuito de trazer mais visibilidade para este esporte de protagonismo feminino como um incentivo para as crianças e adolescentes cearenses que tanto se dedicam à ginástica rítmica. A competição conta com a participação de diversas entidades, incluindo a equipe de Ginástica do BNB Clube Fortaleza.

Maria Clara e demais atletas ouvindo instruções em treino / Imagem: Lívia Magalhães

O OUTRO LADO DA SALA
Amanda Lima, 21, é professora de turmas de escolinha de ginástica rítmica do BNB Clube Fortaleza e assistente coreográfica das atletas escolhidas para participarem da III Copa Lapidando Diamantes. Amanda, que já competiu nos seis anos que praticou ginástica como atleta, se encontra há quatro anos do outro lado da sala, polindo e cuidando do talento de novas gerações do esporte.

A paixão pela modalidade veio quando, aos oito anos, uma professora a viu em uma aula de balé clássico e viu potencial para a ginástica rítmica que, segundo a atleta, mesmo que ela tente, não consegue se ver longe. Faltando apenas dois meses para completar dez anos – durante uma época de preparação competitiva como a que está vivendo agora com suas alunas – Amanda começou a identificar algumas complicações no seu rendimento.

Uma queda repentina no seu condicionamento a fazia não conseguir completar as séries, por muitas vezes era necessário se deitar para voltar ao normal. A descoberta da diabetes tipo 1 a fez parar de treinar por alguns meses para que pudesse se acostumar com a nova vida, adiando assim sua participação em competições.

Agora, adaptada à convivência com a doença, a professora usa do aprendizado com o esporte para lidar com a rotina do controle da diabetes, que exige algo que é constante no tatame: disciplina.

Amanda Lima com alunas em uma de suas turmas do BNB Clube Fortaleza / Imagem: Lívia Magalhães

A ex-atleta e agora instrutora compartilha que nunca tinha se imaginado trabalhando com ginástica rítmica. “Na época que eu era ginasta não pensava muito no que queria ser”, conta Amanda. Como um ciclo, é a sua vez de inspirar as jovens mentes e mudar destinos por meio do esporte. “Sou muito feliz por trabalhar com o que amo e pretendo seguir com isso e quem sabe ter o meu próprio espaço”.

Ensinadas a não parar a série apesar das mais diversas adversidades e imprevistos, Amanda e Maria Clara seguem construindo sua caminhada com esse esporte impactadas pelo ensinamento de sempre poder aprender um pouco mais no próximo treino.

ALÉM DO TATAME
Apesar de caracterizada como um esporte de alto rendimento, a ginástica rítmica marcou a vida de ambas não apenas pelas experiências técnicas vividas dentro da modalidade, mas também pelo desenvolvimento pessoal. Capaz de um fortalecimento além do físico, a prática traz um envolvimento constante para essas atletas. A tenacidade vista em suas histórias, apesar das adversidades na área da saúde, deixa de parecer uma mera coincidência.

Mesmo com muitos primeiros lugares, um intercâmbio para a Irlanda e algumas medalhas de ouro, Maria Clara ressalta que entre os seus próximos objetivos dentro da Ginástica Rítmica estão participações em competições ainda maiores, conquistar fortalecimento pessoal e amadurecimento. “Cada coreografia que você apresenta lhe ensina a corrigir seus erros; se o aparelho cair, a lidar com isso. A cada dia, a cada treino, a cada competição, a cada apresentação, a ginástica me ensina a ter mais resiliência”, pontua a jovem.

Maria Clara entrou na ginástica rítmica aos 10 anos / Vídeo: Lívia Magalhães

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