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EDUCAÇÃO E PANDEMIA: Coronavírus aumenta evasão escolar no Brasil

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Com a crise humanitária causada pelo Covid-19 as desigualdades sociais atenuaram-se e o número de estudantes fora das escolas sofreu um aumento significativo 

A instabilidade humanitária causada pela pandemia do coronavírus tratou de escancarar os contrastes sociais e evidenciou o recorrente processo de desvalorização da educação brasileira. Em um “novo normal”, professores e alunos precisaram reinventar-se para conseguir manter a educação funcionando de maneira adequada. Assim, com a substituição do ensino presencial pelo remoto, as escolas e os educadores, com poucas ferramentas, tiveram de modificar as suas atividades cotidianas para atender a demanda durante a epidemia do Covid-19. Do outro lado, os estudantes tiveram que experimentar a dualidade da escolha entre a fome e o conhecimento. 

O Relatório “Enfrentamento da Cultura do Fracasso Escolar”, produzido pelo Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas (Unicef), divulgado em janeiro de 2021, mostra que 1,38 milhões de alunos brasileiros, entre 6 e 17 anos, abandonaram suas instituições de ensino.

 FOTO: José Alves /Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC)

Com a necessidade de seguir o isolamento social rígido, as instituições escolares tiveram que se adaptar aos moldes das novas formas de ensino para ofertar conhecimento. Nesse novo modelo, educadores trocaram as salas de aulas por computadores e as carteiras transformaram-se em figuras. Diversos foram os desafios encontrados, desde a exigência de novos materiais às condições salubres de exercício da profissão, para incrementar no desenvolvimento dos alunos e conseguir apresentar resultados semelhantes aos do presencial. 

Para o professor André Isaac Santos, graduado em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), a ausência de aptidão com a nova realidade educacional foi uma das principais dificuldades: “Não temos muitas referências do que é bom e do que é ruim. Sempre tivemos no ambiente presencial, mas no modelo híbrido e no modelo remoto estamos tateando e isso dificulta muito. Outro problema, é a questão do feedback, em sala de aula é simples perceber quando os alunos estão acompanhando o conteúdo e quando não, no híbrido isso fica muito dificultado.”, afirma.

Evasão escolar e suas implicações 

    Além do magistério, a classe estudantil também sofreu com os impactos provocados pela Covid-19. A alteração do formato tradicional da educação diária acabou ocasionando na diminuição da participação ativa dos estudantes nas disciplinas e, em muitos casos, o abandono das atividades escolares.  

Mesmo antes da pandemia, o Brasil já registrava números alarmantes referentes à evasão escolar. Um estudo de 2019, apresentado pelo Unicef, em parceria com o Instituto Claro, mostrou que 2,1 milhões de alunos foram reprovados e mais de 620 mil deixaram permanentemente as suas escolas, durante aquele ano. A análise ainda denota que a problemática acontece com mais frequência em regiões específicas do país, sendo elas Norte e Nordeste, apontadas pelo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como as que detém a população mais vulnerável.  

Diferentes fatores contribuem para que os estudantes abandonem as suas instituições de ensino. Apesar da singularidade, a finalidade é quase sempre a mesma: sobrevivência e complemento da renda familiar.  A falta de apoio e acompanhamento dos responsáveis, a precarização da infraestrutura das escolas brasileiras, a frequente reprovação, o déficit de acessibilidade pedagógica e as necessidades básicas de alimentação, entre outras situações, são outros fatores responsáveis pela evasão escolar. 

No Estado do Ceará, em mais uma pesquisa realizada pelo Unicef, cerca de  49 mil estudantes, entre 4 e 17 anos, no ano de 2019, encontravam-se em situação de evasão escolar, e com a epidemia do coronavírus o índice apresentou um aumento expressivo de 170%, mostrando que no ano seguinte um pouco mais de 135 mil alunos estavam fora da sala. 

FOTO: Prefeitura de Barueri

Durante a primeira onda de contágio do coronavírus, o isolamento foi considerado por especialistas como uma das melhores intervenções para conter a disseminação do vírus. Em contrapartida ao benefício da saúde, a educação, na figura dos estudantes, amparados na perspectiva síncrona, sofreu com as novas dificuldades para manter os estudos, seja pela carência de acesso a internet ou falta de recursos tecnológicos, além das condições psicológicas em decorrência do medo e do alto índice de mortes. A alternativa encontrada por muitos,  foi a desistência. 

Outro ponto que precisa ser enfatizado nesse contexto é o de que a renúncia escolar está diretamente atrelada à pobreza e a desigualdade social. Uma síntese de indicadores sociais montada pelo o IBGE, no ano de 2019, revelou que a desistência é oito vezes maior entre jovens de famílias mais pobres. Quando questionado sobre as possíveis intervenções, o professor André Isaac Santos afirmou ser necessário atuar imediatamente fazendo um levantamento sobre as condições estruturais e psicossociais dos alunos: “A partir desse levantamento é necessário atuar com urgência nas zonas mais carentes de energia, celular, computador, internet de qualidade e apoio psicossocial. Os esforços financeiros não podem ser medidos, visto que estamos falando de uma geração que estará fadada a ser perdida”, complementou o educador.

  A pandemia atenuou fragilidades existentes, e sem dúvida pode-se perceber como a educação no Brasil, que é processo tão importante, é frágil. A escola é o principal impulsionador da cidadania e do desenvolvimento intelectual, e durante as restrições sanitárias, sem os recursos de aprendizagem necessários e, principalmente, sem os seus protagonistas, os alunos, o êxito desse processo tende a ser comprometido.

        Com a previsão de retorno ao ensino presencial cada vez mais próxima e dependente de um programa de vacinação rápido e eficaz, a evasão escolar torna-se mais perceptível, já que alunos que pararam de estudar durante o período de isolamento talvez não voltem às instituições. Assim, alguns profissionais tentam encontrar soluções para diminuir o número de estudantes fora da sala de aula. Tiago Araújo, licenciado em Ciências Sociais, com mobilidade acadêmica na Universidade do Minho (UMinho), em Portugal, e Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) apontou que algumas medidas podem ser desenvolvidas para potencializar esse retorno. “Não vamos superar mais essa crise se as pessoas não estiverem se sentindo bem. A preparação inicial é acolher, encontrar sentido e aí superar os obstáculos”. 

Que o sistema educacional brasileiro tem falhas e que elas foram mais sentidas com a crise causada pela pandemia, ninguém duvida, então neste momento, faz-se necessário que alunos, pais e professores tentem alterar essa realidade e modificar o número crítico de evasões das salas de aula brasileiras. Políticas públicas consistentes são necessárias, afinal, a educação tem o poder de transformar vidas. Quando questionado sobre a construção de intervenções públicas para reduzir o abandono e garantir a permanência no ambiente escolar, Tiago Araújo afirmou ser necessário potencializar investimentos no modelo de educação integral ofertando suporte alimentar, transporte, saúde e lazer para os estudantes. 

Texto: Jefferson Valente, Luís Carlos Silva e Vitória Carolina Vieira (Jornalismo / Uni7)

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