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Olha a Elle: uma análise da Elle View, primeiro produto inteiramente digital da gigante do jornalismo de moda

Categoria:

Artigos, Texto, Uni7 Informa

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Maria Luiza Artese Teles de Santana

Centro Universitário 7 de Setembro

Sumário: Sumário: 1. Introdução. 2. Metodologia. 3. Hipertextualidade 4. Mutimedialidade 5. Interatividade 6. Memória 7. Instantaneidade 8. Personalização 9. Ubiquidade 10. Considerações finais 11. Referências bibliográficas.

Resumo: A Elle View, produto exclusivamente digital da Elle Brasil, é pioneira no mundo ao oferecer aos assinantes um conteúdo pensado só para a web. Por meio da leitura do livro Webjornalismo: 7 características que marcam a diferença”, organizado por João Canavilhas (2014), este artigo analisa a Elle View de acordo com os conceitos de hipertextualidade, interatividade, multimidialidade, instantaneidade, memória, personalização e ubiquidade, aproximando-se de uma diferenciação jornalística criada para produtos disseminados a partir da internet. O objetivo é conhecer quais dessas características estão sendo utilizadas pela Elle View.

Palavras-chave: Elle View, webjornalismo, jornalismo de moda, jornalismo imersivo

1 Introdução

Este artigo é produto da cadeira de Webjornalismo 2021.1, do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da UNI7. Ele é resultado de um mergulho nas bases do jornalismo em web, sincronicamente empreendido em meio a uma pandemia mundial que nos transportou à presença quase que compulsória na web, agora que a educação migra, junto do jornalismo, para uma existência mais virtual. Desde o começo do semestre, analisamos, individualmente, uma revista ou portal de notícias de nossa escolha, sendo exigido unicamente que este também estivesse lá, na grande rede – onde, reconstruídos em pixels, pudéssemos surfar nas suas teias e compreender como o nosso ofício opera agora num mundo cibernético. Por afinidades pessoais, a autora do artigo escolheu a Elle, renascida, como nós, das chamas para os pixels no auge da pandemia. 

Fundada por Hélène Gordon em 1945, a primeira Elle surgiu da parceria do que viria a ser um dos mais poderosos casamentos da mídia francesa: fugida da Rússia por conta da Revolução Bolchevique, Hélène, formada e treinada em etnografia, foi viver na França, onde conheceu e casou com Pierre Lazareff em 1938, seu então chefe no famoso jornal France-Soir. Com a chegada da Segunda Grande Guerra e o fechamento do jornal, o casal teve de migrar para Nova York, onde rapidamente se integrou com a imprensa local. Hélène trabalhou para o New York Times, a Harper’s Bazaar e a Vogue antes de finalmente voltar para a França.  Da união do magnata da mídia e da jornalista vieram duas filhas e, em 1945, aquela que viria a ser a maior revista de moda da atualidade, a sua terceira menina: a Elle, Ela em francês. 

A expansão da revista acabou levando-a aos EUA em 1985 e, três anos mais tarde, a primeira Elle brasileira era publicada pela editora Abril. Tendo se firmado como uma das mais criativas e inovadoras revistas da editora, apresentando pioneirismo em assuntos como feminismo, representatividade e tecnologia, ainda assim a Elle foi descontinuada em 2018. 

Em 2020, no entanto, ela retornaria totalmente reinventada nos meios digitais, com uma revista digital exclusiva, a Elle View, a ser analisada neste artigo.  O objetivo é relacionar os sete conceitos principais elencados por João Canavilhas e outros estudiosos na obra Webjornalismo: 7 características que marcam a diferença aos dados obtidos da observação dos três últimos exemplares disponíveis da Elle View até a confecção deste artigo. Trata-se das edições de fevereiro, março e abril de 2021. 

É interessante lembrar que a experiência de conteúdo exclusivamente virtual numa revista que marcou tantos momentos do impresso é pioneira na edição brasileira. A Elle é publicada em 60 países, sendo considerada a maior revista de moda em circulação, com 45 edições originais pelo mundo. Mas apenas no Brasil o movimento da transição do produto mensal impresso para o exclusivamente virtual aconteceu. Segundo Susana Barbosa, editora-chefe da revista, “Somos a primeira ELLE a investir nesses formatos, que já começam a despertar o interesse de algumas das outras 45 edições espalhadas pelo mundo”.

2 Metodologia

Para melhor desenvolvimento do artigo, foi decidido realizar uma análise das três últimas edições da Elle View. O portal da Elle Brasil, assim como suas redes sociais, é amplo em termos de conteúdo e, diante do objetivo de produzir um artigo que se relacione ao conteúdo aprendido em sala de aula, seria inviável analisar em sua totalidade com a qualidade almejada. Esse recorte também apresenta vantagens, tais como a possibilidade de uma maior atualidade da análise, além da exploração acadêmica do que diferencia a Elle Brasil de outros portais de jornalismo de moda no mundo. O seu website (elle.com.br) é carregado de conteúdo gratuito, e edições trimestrais de luxo ainda são impressas sob demanda de assinantes do plano premium. 

Diferente de outras edições, como a inglesa, que tem uma versão digital da revista impressa para assinantes, a edição brasileira tem um produto inteiramente autoral e, portanto, mostra-se mais interessante debruçar-se sobre isso. Ao longo do texto, prints e imagens retiradas das edições selecionadas são usados para ilustrar elementos da análise. O artigo é dividido em sete seções referentes às sete características exploradas por Canavilhas e os demais autores na obra supracitada. Alguns artigos de apoio também serão utilizados. 

3 Hipertextualidade

 Canavilhas (2014, p. 5, apud Ramón Salaverria, 1985) explica o conceito de hipertextualidade como “a capacidade de ligar textos digitais entre si”. Na prática, isso vai implicar numa reestruturação do texto jornalístico, e, por isso mesmo, seu capítulo no livro vai falar das diferentes arquiteturas possíveis, agora que a pirâmide invertida não é mais a regra do jogo. 

Seria impossível, de fato, encaixar qualquer conteúdo da Elle View numa pirâmide invertida de qualquer espécie. Seus textos são reportagens, análises e até mesmo, muito frequentemente, crônicas ou artigos de jornalismo literário. Tecnicamente falando, a Elle apresenta variações na sua utilização de hiperlinks: os editoriais das edições de fevereiro e março funcionam como uma espécie de índice, com hiperligações embutidas no meio do texto para levar à matéria desejada pelo leitor. Na edição de abril, no entanto, esse padrão se quebrou, ainda que a enumeração dos assuntos estivesse presente na carta do editor. Os hiperlinks das edições anteriores, nesta, ficaram externos, ou seja, postos no menu lateral de exploração da edição, ou no índice visual acessível pelo mesmo menu. Não foi possível identificar se a mudança aconteceu por decisões internas ou por uma falha na diagramação final. 

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1 – Editorial da Elle View de março, com hiperlinks sublinhados x Editorial da Elle View de abril, sem nenhum hiperlink

Nas demais seções da revista, os hiperlinks permanecem com funções diversas, sempre embutidos no texto. Em certas matérias, como a de acessórios de carnaval da edição de fevereiro (Figura 2), chegamos até a ver links diretos para sites de vendas de produtos.

Uma imagem contendo Interface gráfica do usuário

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Interface gráfica do usuário, Aplicativo

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2- Tela de rolagem com imagens e links sublinhados que direcionam aos sites de venda dos produtos mencionados

Acerca desse tipo de funcionalidade, em que os textos multimídia abrem espaço para interações diretas com possibilidades de compra, Juan Miguel Aguado, no seu artigo “La indústria de contenido en la era post-PC: horizontes, amenazas y oportunidades”, discorre que:

Essas mesmas tecnologias que possibilitam o desenvolvimento de novas potencialidades para o consumo de conteúdos culturais também oferecem um canal de interação privilegiada com marcas em um ambiente de consumo fluido tendendo a incorporar também meios de pagamento imediato. É verdade que boa parte dessas possibilidades ainda precisa ser explorada ou, em certos casos, integrados em uma estrutura comercial viável. (AGUADO, 2013, p.9)

A Elle View acaba fazendo esse entrelaçamento entre produto e consumidor com frequência em suas matérias, o que, na verdade, representa a evolução midiática de uma prática que já era comum às revistas de moda, indicando produtos selecionados pelos seus editores. A diferença, agora, é que é possível ir direto à página do vendedor e adquirir o produto através do webcommerce. 

Além dos hiperlinks de função narrativa, que direcionam os usuários oferecendo diferentes percursos de leitura (Canavilhas, 2014) ou consumo, a Elle View também se utiliza de hiperlinks de função documental, ou seja, ampliadores de informação, ao direcionar o leitor a outras fontes que complementem o conteúdo disposto nas matérias. Os hiperlinks se dividem entre os que levam a matérias do próprio portal da Elle, e os que servem como embasamento, ligando dados a pesquisas que os comprovem. 

Interface gráfica do usuário, Texto

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3 – Hiperlink sublinhado em matéria da Elle View levando a uma matéria do portal da Elle Brasil, gratuita

Interface gráfica do usuário, Texto

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4- Hiperlink na matéria da Elle View direcionando a uma matéria do NY Times

Além dos exemplos citados, é preciso salientar que a arquitetura de leitura da Elle View é do tipo scroll – uma única página que vai se desenrolando à medida em que o leitor rola a tela para baixo. A distribuição de blocos informativos com títulos separados acontece em algumas matérias, em outras não, e o uso de hiperlinks apenas ao final das frases é mantido, no geral. 

4 Multimedialidade

“A comunicação humana é multimédia. Sempre o foi”, observa Ramón Salaverría (2014, p. 25), ao iniciar seu artigo sobre multimedialidade no livro base. De fato, desde sempre a humanidade esteve atrelada ao uso de diversos sentidos para assimilar histórias, e a era do webjornalismo aponta para uma escalada vertiginosa rumo à convergência das mais variadas mídias. Com o uso da fotografia, do vídeo, da música, da palavra escrita e falada, dos gifs, das ilustrações animadas e até mesmo do recurso da simulação de conversas, a Elle View é tão rica em termos multimídia que não seria demais fazer um paralelo entre a maneira que constrói suas narrativas e o que poderia ser, na web, um novo tipo de jornalismo literário. 

No artigo intitulado “The digital animation of literary journalism”, os pesquisadores Susan Jacobson, Jacqueline Marino e Robert E Gutsche Jr (2015) analisam 50 peças de material jornalístico multimídia da web americana, investigando as relações entre as novas narrativas animadas dos portais web com as técnicas tradicionais de jornalismo literário, que pareceram ficar esquecidas no passado. Para os pesquisadores, essas novas narrativas são uma versão contemporânea do antigo New Journalism, e parece interessante citar uma parte de seus apontamentos, na medida em que a Elle View se utiliza constantemente de recursos narrativos e linguagem poética na sua linha editorial.

À medida que o jornalismo e outras mídias se desenvolveram online, as formas de narrar histórias tomaram rumo em uma direção mais curta, multi-linear, e de comunicação em rede.[…]essas formas de jornalismo digital representam uma nova onda do jornalismo literário. Mais especificamente, nossa análise das características de storytelling de jornalismo literário do conteúdo das peças sugere que, enquanto o uso de técnicas multimídia desse gênero como video loops e formatos digitais como parallax e rolagem de uma só página reflete a habilidade técnica dos jornalistas de hoje, as técnicas também representam a integração da tecnologia na narração de histórias que guardam seus próprios propósitos literários. Esse storytelling digital engloba mais do que os fragmentados, descentrados blocos hipertextuais da Web e alarga as compreensões do campo acerca do potencial da Web para um jornalismo dramático e imersivo. (JACOBSON, MARINO E GUTSCHE JR, 2015, p.14).

Vivian Whiteman, colunista mensal da Elle View, tem visão literária em suas reflexões e crônicas acerca do momento vivido a cada edição. Ela rompe com as regras tradicionais que enquadram o jornalista numa tarefa de compulsória esterilidade – o estilo “seja sucinto”, já dizia Guillermo Franco em seu livro “Como escrever para a Web” (2009). Outros redatores fazem o mesmo, e, na verdade, nenhuma matéria da Elle View segue padrões tradicionais importados do impresso, e nem se preocupa com a quantidade de caracteres ou informações, que varia de acordo com o tema. 

Susana Barbosa, a editora-chefe, costuma fazer editoriais imersivos, muito pessoais, e fica claro que a abordagem da Elle View é ser muito mais do que uma revista de moda, ultrapassando esse rótulo e se encaixando numa categoria contemplativa acerca da contemporaneidade e os sentimentos do zeitgeist. O tom intimista das matérias não se constrange em embrenhar-se pelo caminho das narrativas, e a leitura da revista segue fluida em telas iluminadas mesmo com o cansaço dos olhos. Há casos, no entanto, que merecem atenção no que concerne à ideia de se fazer ensaios de moda de maneira diferente – não mais uma mera sucessão de fotos temáticas. A Elle View traz histórias, conta a rotina de pessoas reais e se utiliza de fotografias íntimas para produzir seu conteúdo midiático. É, sem dúvida, uma nova forma de storytelling

Para fim de ilustração, duas matérias de ensaios assim merecem destaque. Uma delas conta a história de um casal separado pela distância geográfica em plena quarentena; a outra mostra o cotidiano íntimo da fotógrafa Carine Wallauer. Ambos os ensaios contam com fotos, vídeos e até mesmo simulações de conversa no whatsapp.

Interface gráfica do usuário, Texto, Aplicativo

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Homem e mulher posando para foto

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5 – Matéria “Amor de perto” traz a história de Mickael, francês, e Suyane, brasileira, em meio à quarentena

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6- Ensaio com a fotógrafa Carine Wallauer mostra seu cotidiano íntimo em vídeos e muitas selfies

Além disso, a Elle View também é multimidiática pelo próprio recurso de duas capas que costuma manter: todas as edições contam com a capa 1 e a capa 2, e, na maioria delas, uma das duas costuma ser em vídeo. Outros recursos, como a montagem e oferecimento de playlists que se relacionem com a matéria, também são utilizados. 

5 Interatividade

A interatividade segue como um dos conceitos norteadores de todo produto tecnológico de massa. Segundo Rost, autor do capítulo sobre este tópico na obra base.

A interatividade implica uma certa transferência de poder do meio para os seus leitores. Poder, por um lado, quanto aos caminhos de navegação, recuperação e leitura que podem seguir entre os conteúdos que oferece. E, por outro lado, relativamente às opções para se expressar e/ou se comunicar com outros utilizadores/as.(ROST, 2014, p.55). 

Colada, portanto, aos conceitos de hipertextualidade e multimidialidade, a interatividade opera na Elle View de duas maneiras: por meio da hipertextualidade, em que o leitor tem autonomia para interagir com o conteúdo da forma que lhe interessar, seguindo, por exemplo, o caminho que quiser através do índice ou do editorial; e pela multimidialidade, em que os recursos para que ele possa fazer isso serão cada vez mais diversos. Feita essa observação, torna-se necessário citar algumas ferramentas do portal da Elle Brasil e das suas redes sociais. 

No Facebook, a Elle conta com um grupo exclusivo de membros ativos. No Instagram, ela se utiliza da hashtag #olhaelle para fazer chamadas entre seus seguidores. Quem quiser participar de ensaios da Elle View pode marcar suas fotos e conteúdos postados no Instagram com a hashtag, e a partir disso uma seleção é feita para escolher seguidores para ilustrar as páginas da revista virtual. Os canais de atendimento da Elle também são ativos 24 horas por dia. 

No que tange à Elle View, convém ilustrar o caso de uma matéria que falava a respeito do estilista Raf Simons. Com fortes influências da música eletrônica, ele é um grande fã do Kraftwerk e, diante disso, a revista disponibilizou uma playlist interativa para quem quisesse conhecer a banda:

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7- Link direto para playlist do Spotify, permitindo que o usuário a salve na própria conta ou escute enquanto lê a matéria

A interatividade da Elle View, portanto, está mais delineada na sua forma hipertextual de oferecer ao leitor certa autonomia ao lidar com recursos midiáticos da revista do que, ocasionalmente, participar ativamente dela através das seleções da #olhaelle no Instagram. 

6 Memória 

Em seu capítulo “Memória: jornalismo e história na era digital”, Palácios (2014) vai buscar nos primórdios da humanidade a capacidade e o desejo de deixar marcas no mundo. Apenas por meio dos registros é possível desenvolver uma teia de memórias compartilhadas com todo o mundo. Culturas se formaram, cresceram e aprenderam porque tinham as recordações deixadas pelos seus antepassados. 

Mas a web, com toda a riqueza do sentido literal que sua tradução carrega – uma rede – se é capaz, por um lado de produzir instantaneidade e perenidade como possíveis efeitos sociais, também é um emaranhado perfeito para depositarmos nossas cada vez mais numerosas manifestações. A Elle View, como produto feito exclusivamente para a web, traz consigo ainda um intimismo semelhante a outras redes – as sociais, onde documentamos nossas vidas como se, através do post e do compartilhamento, pudéssemos tecer sozinhos narrativas únicas. Cada página da revista carrega não somente um punhado de dados informativos, mas parece pesada de uma nostalgia própria que não podia deixar de existir num produto pensado e produzido durante e ao longo da pandemia. Este momento histórico, aliás, nunca deixou de ser pauta da Elle View. Está tão atrelado à sua identidade. como um DNA do cordão umbilical de um bebê que acaba de nascer de uma mãe enferma. 

A Elle View de fevereiro de 2021 é, talvez, uma das mais representativas nesse sentido. Com o tema de carnaval, ela é toda construída da memória de carnavais passados, desde entrevistas de carnavalescos contando fatos registrados nos sambódromos às reportagens documentando tradições periféricas de carnavais esquecidos. Da matéria que fala sobre o carnaval de 1919 – o primeiro depois da gripe espanhola – até o ensaio de Vivian Whiteman sobre os carnavais futuros e os mortos que não os celebrarão, mas serão celebrados. 

Tecnicamente, a Elle View está armazenada, em todas as suas edições, na seção do assinante do portal da Elle. Não importa a que altura a revista tenha sido assinada; todas as edições, desde a primeira, de julho de 2020, estão disponíveis para leitura. Vez ou outra é possível ver menções a nomes ou assuntos célebres na revista, e vez ou outra estes são formatados como hiperlinks para arquivos do portal da Elle sobre todas as matérias acerca do assunto em questão. 

 Diferente do “papel de embrulhar peixe” que Palácios (2014, p. 92) cita ao falar dos destinos de antigos jornais, o exame da Elle View, no carnaval que virá depois da pandemia, não caminha para ser descartável. 

7 Instantaneidade

Na análise empreendida, a instantaneidade não foi percebida como uma característica forte da Elle View. As notícias quentes, as novidades mais acaloradas, a cobertura mais imediata ficam restritas, mesmo, ao portal da Elle. A Elle View vem como um produto a posteriori, analisando em reportagens, crônicas e matérias imersivas coisas e tendências dos nossos tempos – mas nada que tenha acontecido no dia anterior. Uma evidência disso é a data de postagem da revista, que ocorre do meio para o final do mês. 

Cabe aqui o questionamento de Paul Bradshaw (2014, p. 132) para uma possível justificativa da estratégia da Elle View: “Jornalismo instantâneo pode trazer tráfego, mas se os usuários não se mantêm conectados a este, não irão pagar para ter jornalismo”. 

8 Personalização

Segundo Mirko Lorenz (2014), o recurso da personalização ainda é muito subutilizado. Além dos níveis mais básicos, das divisões clássicas de editorias e da hospedagem de blogues jornalísticos dentro dos próprios portais para leitores cada vez mais específicos, ele elenca uma série de características que não se aplicam com muita exatidão à Elle View. 

Acontece que a Elle View já é, em si, um produto da personalização. Ela é exclusiva para assinantes interessados em consumir matérias e ensaios imersivos, não instantâneos, e, para isso, se utiliza de uma linguagem própria que caminha por diversas mídias. A Elle View pode ser acessada pelo computador, mas é melhor visualizada na tela de um smartphone ou de um tablet. Ela é um produto de nicho e a primeira etapa de uma assinatura que pode ser atualizada para a premium, na qual o grau de personalização aumenta ainda mais – os assinantes premium recebem, trimestralmente, edições impressas de luxo em casa. 

Frequentemente, pelo que foi observado, a Elle View oferece materiais exclusivos para que seus assinantes tenham acesso privilegiado a uma aula, um convidado ou uma reportagem. Isso fica particularmente evidente na matéria “O Poder das Mãos”, que fala sobre tricô, crochê e outros trabalhos manuais, que contém um vídeo preparado exclusivamente para os assinantes.

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8- Matéria da Elle View de março de 2021 traz não só links para o canal da costureira Dayse Costa, mas também um vídeo exclusivo com a profissional para que os assinantes possam aprender a costurar

9 Ubiquidade

O conceito de ubiquidade é dos mais estranhos e poéticos: similar à onipresença. A ubiquidade é a propriedade de se estar presente simultaneamente em todos os lugares. O conceito vem da teologia e já inspirou o trabalho do escritor americano Philip K Dick, na ficção científica Ubik (1969). Mais conhecido por ter escrito Andróides sonham com ovelhas elétricas (1968), o livro que deu origem ao clássico Blade Runner, as obras de Dick têm certos temas, também, onipresentes: a condição humana, a tecnologia, e forças misteriosas que operam nesse entrelaçamento, geralmente ligadas a uma ideia extremamente original de espiritualidade. 

Ubik está em todos os capítulos do livro, mas nunca aparece. À medida em que os eventos levam a distorções cada vez maiores da realidade, os personagens podem encontrar Ubik na forma de sprays, pastas, molhos de salada, temperos, etc. Não, ninguém sabe o que é Ubik, mas Ubik existe em todas as épocas, de todas as formas, em todos os mais diversos formatos. E Ubik é poderoso: pode reverter doenças, melhorar sabores, salvar vidas. 

Se parece confuso, é porque é. Mas, paradoxalmente, é extremamente simples. Usando a velha máxima atribuída a Sir Francis Bacon, a de que “conhecimento é poder”, o Ubik de Dick poderia muito bem, nesta analogia, ser informação. 

Sempre tivemos informação. À medida do tempo, essa informação ficou tanta e tão presente que até mesmo parecemos habitar duas épocas ao mesmo tempo, vários lugares em um só, ou uma mesma grande aldeia global como no conceito de McLuhan. Ela transbordou para todos os lugares, carregando memórias e novidades no mesmo esmagador tsunami. Estudar sobre ubiquidade na mídia parece óbvio quando podemos acessar notícias do outro lado do mundo, do conforto da nossa cama, com a instantaneidade de quem as está testemunhando. Temos o mundo todo na palma da mão, e nossos dedos percorrem quilômetros em cliques. 

No mundo de Ubik, até mesmo os mortos têm suas consciências vigiadas; entes queridos são mantidos em sono criogênico depois de mortos, e podem se comunicar e repassar informações aos vivos. Também podem ser hackeados. Pavlik (2014), no seu capítulo sobre ubiquidade, no livro base usado neste artigo, deixa clara a ameaça do avanço tecnológico em vigiar, assistir e conectar todas as realidades: a privacidade foi perdida. O avanço do controle de dados também torna a todos vulneráveis. 

Em trechos mais otimistas, no entanto, ele fala acerca de uma interferência consensual, a dos jornalistas cidadãos ou indivíduos em rede (Pavlik, 2014). Isto é observável na Elle View até certo grau: o movimento da hashtag #olhaelle possibilita o descobrimento e a participação mediada de leitores, a maioria artistas ou produtores culturais. A invasão da privacidade, aqui, parece seguir um caminho de valores inversos, também: não é invasão, mas imersão. 

À medida que a Elle View está presente, como qualquer boa revista de moda, nos maiores eventos, desfiles e acontecimentos do mundo fashion, ela é notavelmente marcada pela disruptiva entrada na intimidade. Fundada durante a pandemia, é o que ela pode fazer, e é uma reflexão óbvia acerca do zeitgeist: estamos todos em casa, tornando-nos ubíquos porque gostaríamos, agora, de estar em todo lugar. 

Na dissertação “Jornalismo Imersivo: a apropriação da realidade virtual em narrativas imersivas brasileiras”, a linguista Marluci Fontana Drum (2019) empreende uma pesquisa acerca das novas narrativas imersivas possibilitadas pelo ambiente virtual, onde a intimidade se torna, agora, o objetivo de recursos narrativos propiciados pela tecnologia:

Ao contar com possibilidades que vão além da captação de diversos ângulos de uma cena, a melhor luz, o áudio ambiente que imprime veracidade, as sonoras (falas dos personagens/fontes) com os discursos de quem viu, viveu ou é especialista no assunto referido e de trilhas sonoras que podem dar o tom do assunto, o jornalismo audiovisual tenta oferecer ao seu público um “mergulho” na narrativa. Para isso, ao apresentá-la por meio do online, conta com ferramentas disponíveis e como, por exemplo, chats, comentários, redes sociais, opções de compartilhamento do conteúdo, entre outros, que possibilitam mais envolvimento, participação e interação do público(DRUM, 2019, p.42).  

Na mesma linha, Karin Wahl-Jorgensen, em seu artigo “An emotional turn in Journalism Studies?”, diz que

Ao proclamar “uma reviravolta emocional” nos estudos de jornalismo, a intenção não é sugerir uma troca de paradigma ou uma grande mudança na agenda de pesquisa prevalecente no campo. Em vez disso, diante do cenário de uma área cada vez mais fragmentada e diversa, é apontar que a relação entre o jornalismo e as emoções representa um campo de questionamento que se desenvolve rapidamente, abrindo-se para novas agendas de pesquisa, com particular relevância para o estudo do jornalismo digital (Wahl-Jorgensen, 2019).

A “reviravolta emocional” proposta por Wahl-Jorgensen(2019) torna-se evidente na análise da Elle View. O que o autor pretende ao empreender seu estudo é pesquisar acerca de um novo paradigma jornalístico, mais presente em reportagens e estimulado pelos recursos da web, que apela para uma abordagem mais intimista e propulsora do emocional no leitor – não mais um mero consumidor de notícias instantâneas. Wahl-Jorgensen (2019) destrincha a controvérsia que ainda existe nesse tipo de jornalismo, mantido pelas ideias tradicionais de um jornalismo clássico aos moldes do impresso.

Essa aproximação da intimidade e, consequentemente, das emoções, vai marcar toda a linha editorial da Elle View, transformando seus leitores, consumidores e público, e não apenas mais celebridades ou pessoas de prestígio, em informações ubíquas. Não se trata apenas de trazer o mundo para a casa das pessoas; a Elle View supera essa máxima levando as pessoas para o mundo. 

10 Considerações finais  

Para este trabalho, cabe dizer que, ao analisar a Elle View e tentar enquadrá-la nos sete conceitos básicos do trabalho organizado por Canavilhas (2014), esbarrou-se na parede da intimidade, do fazer jornalístico diferenciado, de uma categoria quase impossível de se categorizar, de uma redação, produção e linha editorial muito mais fluidas e orgânicas do que meras sete características técnicas. Apesar de estarem lá, em maior ou menor grau, não há uma prioridade robótica na forma como se organizam cada uma das sete propriedades analisadas neste artigo, e, como dito anteriormente, ao contrário de muitos produtos jornalísticos que ainda se apoiam na superioridade da novidade, não foi possível observar que a Elle esteja muito afinada à ideia de instantaneidade. Sua interatividade também é limitada, mas o grau de personalização que ostenta é, sem dúvida, seu maior diferencial. É inegável que exista um trabalho técnico muito reforçado por trás da Elle View – mas este opera, como define Wahl-Jorgensen (2019), na direção de uma virada emocional. 

Nascida na pandemia, a Elle View parece tatear suas curvas como uma adolescente que, atônita, espia o próprio corpo tomar forma na frente do espelho. Uma adolescente que ainda não atingiu a maioridade, que ainda não pôde sair do isolamento, mas que entrou na casa dos brasileiros com a proposta contemporânea de uma simplicidade sincera, quase como uma amiga que conversa ao invés de informar e nos proporciona debates relevantes acerca de uma época tão peculiar. Original, despretensiosa, intuitiva, poética e irreverente, ela ainda há de ver o mundo lá fora – por mais que ela já o acolha, quase todo, no seu seio. 

11 Referências

AGUADO, Juan Miguel. La industria del contenido en la era Post-PC: Horizontes, amenazas y oportunidades. In: CANAVILHAS, João (org.). Notícias e Mobilidade: O Jornalismo na Era dos Dispositivos Móveis. Covilhã: Labcom Books, 2013. p. 5-32. (Jornalismo). Disponível em: https://labcom.ubi.pt/ficheiros/20130404-201301_joaocanavilha_noticiasmobilidade.pdf. Acesso em: 13 maio 2021.

CANAVILHAS, João et al (org.). WEBJORNALISMO: 7 características que marcam a diferença. 2014. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/269113483_Webjornalismo_7_carateristicas_que_marcam_a_diferenca. Acesso em: 14 maio 2021.

DICK, Philip K. Ubik. São Paulo: Aleph, 2009. 240 p. Tradução de Ludimila Hashimoto.

“Don’t know much about (ELLE’s) History…”. Elle, 2009. Disponível em: https://www.elle.com/fashion/news/a2971/dont-know-much-about-elles-history-1768/

DRUM, Marluci Fontana. Jornalismo Imersivo: a apropriação da realidade virtual em narrativas imersivas brasileiras. 2019. 157 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Letras, Unisc, Santa Cruz do Sul, 2019. Disponível em: https://repositorio.unisc.br/jspui/bitstream/11624/2439/1/Marluci%20Fontana%20Drum.pdf. Acesso em: 17 maio 2021.

ESTEVÃO, Ilca Maria. “Elle Brasil está de volta! Veja detalhes do retorno digital da revista”. Metrópoles, 2020. Disponível em https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/elle-brasil-esta-de-volta-veja-detalhes-do-retorno-digital-da-revista

FRANCO, Guillermo. Como escrever para a Web: Elementos para a discussão e construção de manuais de redação online. 2009. Disponível em: http://www.pgcl.uenf.br/arquivos/como-escrever-para-a-web_011120181548.pdf.

JACOBSON, Susan, MARINO, Jacqueline & GUTSCHE JR, Robert. The digital animation of literary journalism. 2015. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/273181655_The_digital_animation_of_literary_journalism. Acesso em: 15 maio 2021.

REIS, Ivan. “O Retorno de Elle Brasil: passado, presente e futuro do jornalismo de moda”. I Am Inteligência e Moda, 2020. Disponível em: https://iaminteligenciaemmoda.com.br/ponto-de-vista/o-retorno-de-elle-brasil-passado-presente-e-futuro-do-jornalismo-de-moda/

SUSANA BARBOSA (São Paulo). Revista Elle Brasil (ed.). Elle View. 2021. Disponível em: https://elle.com.br/. Acesso em: 13 maio 2021.

WAHL-JORGENSEN, Karin. An Emotional Turn in Journalism Studies? Digital Journalism: Digital Journalism and Emotions. Cardiff, UK, 12 dez. 2019. p. 175-194. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/21670811.2019.1697626. Acesso em: 18 maio 2021

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