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DELLANO RIOS: Os novos – e antigos – desafios do jornalismo cultural

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Entrevistas, Texto

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Editor do Caderno 3 do Diário do Nordeste avalia os problemas do jornalismo cultural em Fortaleza

Dellano Rios, editor do caderno 3, acredita que falta leitura aos estudantes (Foto: Eduardo Almeida)

Dellano Rios, editor do caderno 3, acredita que falta leitura aos estudantes (Foto: Eduardo Almeida)

Para alguns estudiosos, como Daniel Piza, o jornalismo cultural teve o marco em Londres, no ano de 1711 com o lançamento da revista The Spectator por Richard Streele e Joseph Addison. A finalidade, segundo Piza, era tirar a filosofia das universidades e levá-la às casas de chá londrinos. Samuel Johnson, autor de The Rambler, é tido como o primeiro grande crítico cultural.

No Brasil, no fim do século 19, o jornalismo cultural ganha força, e Machado de Assis foi um dos principais escritores que se destacaram nesse gênero. Atualmente, além de críticas de arte, o jornalismo cultural adquire outras características, como a reportagem e entrevistas. E é neste cenário que o jornalista Dellano Rios, editor do Caderno 3, do jornal Diário do Nordeste, se insere. Em entrevista ao Quinto Andar, ele criticou o direcionamento do jornalismo cultural, avaliou os limites entre cultura e entretenimento e entende que os cursos de jornalismo poderiam ser mais ousados nas experimentações e não concorda com a corrente de pensamento que defende a formação para o mercado.

Quinto Andar – Qual a sua análise crítica do jornalismo cultural em Fortaleza?
Dellano Rios: Posso falar com mais propriedade do jornalismo cultural no espaço de 10 anos, que é o tempo que estou inserido no mercado. Conheço alguma coisa das décadas de 1950 e 1970. Sou um pouco crítico desse romantismo em torno jornalismo cultural direcionado para os intelectuais ou para a imprensa, que é o que se fala muito. Nos anos 50, por exemplo, os cadernos de cultura eram muito pequenos.

QA – Quais os pontos positivos e negativos do jornalismo cultural atualmente?
DR: Quando há uma profissionalização dos jornalistas, as publicações são mais impessoais. Hoje, é mais fácil um escritor chegar na portaria de um jornal e ter seu livro resenhado do que há alguns anos, e isso eu vejo como um ganho. Porém, como programas e pautas voltados para os conteúdos culturais diminuíram em todas as plataformas, essa divulgação, naturalmente, perde espaço e isso eu vejo como um ponto negativo para o jornalismo cultural. Essa diminuição já era percebida há 10 anos, e me arrisco a dizer que nos últimos cinco anos, esse cenário se acentuou.

QA – Houve uma centralização do conteúdo cultural?
DR: Sim. Nos jornais impressos e nas produções na internet desses jornais. Quando havia somente o impresso, havia os concorrentes diretos e, de uma forma ou outra, serviam como parâmetros uns dos outros. Com a fusão do jornal impresso com o online, amplia-se o número de concorrentes em consequência de referências. Na internet, o nosso principal concorrente pode nem ser necessariamente o jornal O Povo, mas um portal como G1, por exemplo. Esses portais, porém, investem pouco em cultura e mais no entretenimento.

QA – Há limite entre cultura e entretenimento? Há uma confusão em definir as duas áreas?
DR: São zonas cinzentas. A questão da definição é um grande desafio no jornalismo de cultura e não existe um manual que especifique cada uma delas. A cultura e o entretenimento são como se fossem uma intercessão das áreas, porém o entretenimento é muito voltado para cobertura de celebridades. Podem sair 10 notas sobre o Chico Buarque, mas nenhuma nota sobre seu novo disco. Falar somente da vida do artista e não da sua produção, é algo típico do entretenimento, e isso é grave quando se trata de uma produção jornalística.

QA – Sobre os futuros jornalistas, os universitários. Qual a sua opinião sobre a qualidade desses estudantes?
DR: As faculdades, de um modo geral, têm problemas de formação. Eu, porém, não sou da corrente de pensamento que se devem formar profissionais para o mercado, porque o mercado meio que te obriga a fazer determinadas coisas. Existe uma parte técnica que se aprende na faculdade, como a apuração, que são boas. Fala-se muito de uma revolução no jornalismo, mas a verdade é que o básico do jornalismo, que é a boa apuração, ouvir os lados envolvidos, isso permanece. As faculdades poderiam ousar mais na experimentação. No jornalismo se trabalha muito rápido. São duas opções, ou você não aguenta e larga por não ter o perfil ou você se apaixona pela profissão. É um ‘intensivão’ e se aprende tudo muito rápido. O que acho que falta às universidades é fazer aquilo que o mercado não faz ou não faz ainda.

QA – Falta alguma disciplina para uma melhor compreensão do jornalismo cultural?
DR: Sobre a falta da disciplina, acredito que redação é uma disciplina faltante, pois é como se houvesse um despreparo na leitura do que se vê, na tradução do que se observa. O peso das palavras é pouco compreendido pelos estudantes, e isso é desconhecimento verbal. Falta leitura.

QA – Durante os seus 10 anos de mercado, na sua opinião, o que contribuiu para a sua ascensão nesse mercado que é pequeno e competitivo?
DR: Acredito que foco. Eu fiz jornalismo já sabendo que eu gostaria de trabalhar na área de cultura, pois eu sempre fui fã de música, lia sobre música, comprava revista, e isso se reflete no meu trabalho e as pessoas reconhecem isso.

Eduardo Almeida
7º Semestre

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