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PERFIL: As memórias que ainda não esqueci

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Passos curtos. Em uma das mãos carrega o seu balaio, levando agulhas, tiras de fita, corte de retalho e uma tesoura. A outra mão é segurada pela neta, que apoia a avó na descida da calçada. Com lágrimas nos olhos aspira fortemente pelo nariz, deixando demonstrar toda sua emoção. Os vizinhos postados em suas calçadas acenam em sinal de despedida. Alguns colocam a mão sobre a boca em uma rápida tentativa de esconder a emoção.

O movimento naquela área da rua Coronel Afro Campos, em plena 22 horas, parece mais agitado do que o habitual. Homens entram e saem da casa, além dos falatórios: “vem, vem”; “calma, pega do outro lado”. O caminhão com as portas traseiras abertas não deixa dúvidas: dona Helena e a família Façanha estão mesmo de mudança. Uma das casas mais antigas do centro de Maranguape, não terá mais a alegria de seus moradores.

Helena na frente da casa (Foto: Dyego Viana)

Helena Cardoso Façanha nasceu em 1932, na localidade de Mucunã, hoje bairro de Maracanaú. Filha de trabalhadores rurais, viveu a infância em meio aos riachos e obrigações da lavoura. Adepta de um bom bate papo, muitas de suas conversas enveredam sempre para o mesmo assunto: a infância na Mucunã. “Quando fecho os olhos parece que tô é vendo, a minha casa, o papai tirando chuchu, o riacho. Ave Maria eu me lembro demais!”, relembra Helena, com saudade.

Ao falar da infância com tanto carinho, deixa transparecer que o período foi um dos mais marcantes em sua vida. As lembranças da época aparentam ter um lugarzinho especial na memória prejudicada pelo Alzheimer. O período ali teve fim aos 12 anos de idade. Sem escolas por perto, viu-se obrigada a largar a família e ir morar na sede de Maranguape, distante a apenas 10 Km.

A vultosa serra foi o destino da jovem, abrigada na residência da tia Clotilde Cardoso, carinhosamente lembrada por ela. Passou o curto período escolar morando com a tia. Com o término dos estudos, no fim da juventude, Helena tem acesso a um universo novo, passando a morar com dona Ceci, personalidade conhecida na cidade, por gerir uma espécie de “escola para moças”.

Foi na casa de dona Ceci onde aprendeu tarefas importantes para as garotas da época. “Lá aprendi a bordar e cozinhar. Tudo o que a gente costurava, dona Ceci vendia nas feiras”, recorda Helena, enquanto prepara uma nova peça de fuxico (espécie de flor artesanal feita de retalho). Entre as descidas e subidas da Serra da Preguiça em direção ao centro, seu caminho foi cruzado por um jovem. O rapaz, magro, com cabelo penteado para o lado esquerdo, era Jaime Façanha, seu futuro marido.

O relacionamento dos dois iniciou-se com consentimento de dona Ceci, que autorizava e controlava as visitas de Jaime à moça. “Ele não vinha sempre não, porque ela não deixava. Mas, quando vinha trazia bolo, tapioca, rapadura. Era bom demais”, recorda aos risos. Quando completa 19 anos, seu matrimônio é selado. O casal viveu em diversas casas, mas sempre por um curto período. Logo os dois rumaram para um local que marcaria para sempre a vida da família: a residência na Rua Coronel Afro Campos, centro da cidade de Maranguape.

O talento de dona Helena na confecção do fuxico (Foto: Dyego Viana)

De acordo com o relato da filha do casal, Fátima Façanha, a emblemática casa foi adquirida pelo seu avô, Domingos Façanha, pai de Jaime, em 1913. As espessas paredes formadas por quatro linhas de tijolos, evidenciam a engenharia do século XIX, embora o ano exato da construção é uma incógnita para a família. “Até alguns anos, a gente ainda tinha uns tijolos da casa. Eram aqueles pequenos feito de barro, coisa muito antiga”, explica Fátima.

Com a morte do sogro, Helena e o marido passam a residir na antiga casa no fim dos anos 60. Lá, os filhos, Jairo, Laura, Antônio, Jaíra, Fátima e Josedith foram criados, assim como alguns netos que, por algum momento da vida, também moraram no local. Sempre cheia e movimentada, a residência era o símbolo da rua, que hoje conta com apenas duas casas. O resto da vizinhança é formada por lojas e pontos comerciais.

Uma das últimas casas que teima em resistir ao avanço do comércio na Rua Afro Campos, pertence à aposentada Ivonete Façanha, comadre de Helena e viúva de Jocélio Façanha, irmão de Jaime. Ao falar sobre a ex-vizinha, Ivonete não esconde a saudade. “Depois que eles foram embora essa rua ficou muito parada. Quando as lojas fecham, ninguém fica mais pelas calçadas”, revela a comadre.

Em 13 de julho de 2014, o país amanheceu ansioso. Seria a segunda vez na história que o Brasil sediaria uma final de Copa do Mundo. O neto, Bruno Façanha, apaixonado por futebol, de certo era mais uma dos apreensivos com a data. Foi ele o primeiro a acordar na casa naquele dia. Ao se dirigir à rede do avô, que passava por uma série de problemas de saúde, o neto constatou o falecimento de Jaime. “Chamei e ele não respondeu. Peguei no pulso e não senti nada”, recorda Bruno. Deste fato em diante a vida da família iria mudar.

Depois de mais de 35 anos naquela residência, a vida no local já não era a mesma. Em 2015, o sossego de Dona Helena começava a ser incomodado. A construção de um shopping no quarteirão, atrás da casa, e o crescente movimento comercial em sua rua, perturbava o dia a dia da senhora. Para o bem-estar e saúde de sua matriarca, a família toma a difícil decisão: deixar o local.

A NOVA CASA

As primeiras impressões do novo lar não foram das melhores. Sentada em sua tradicional cadeira de balanço, que acabará de chegar da antiga residência, Helena assistia ao vai e vem de alguns homens a retirar seus móveis do caminhão. Na correria do processo de mudança, a avó foi a primeira a chegar à nova casa, juntamente com a neta, enquanto os outros familiares permaneciam na antiga casa auxiliando no carregamento do caminhão.

Regados à cachaça, o clima entre os homens que descarregavam os móveis era de euforia, risos e brincadeiras. Muitos ali eram conhecidos: genros, antigos vizinhos e amigos da família. Acompanhando tudo de sua nova e espaçosa área, Helena olhou para os lados e percebeu-se só. “Não vou ficar nessa casa cheia de macho não; tão tudo é bebo”, bradou a senhora, para o riso de todos presentes.

A vista da nova casa é tranquilizante, de frente a um descampado, formado por uma série de lotes ainda não construídos no condomínio no qual a família vive agora. Seus novos vizinhos são dois casais de corujas e uma família de tetéus, que vivem no terreno ao lado, mas que toda tarde lhe visitam sobre seu muro. Helena diz gostar da nova morada. “Aqui é bom, tranquilo, tem todo mundo perto”, referindo-se à filha Fátima, que mora no outro quarteirão.

Mas, a tranquilidade do local não a faz esquecer a antiga residência a quem ainda trata como “a nossa outra casa”. Durante uma de suas crises de Azlheimer, arrumou suas coisas, pôs as linhas e as agulhas em seu balaio, estava decidida: “quero voltar pra minha casa”. A filha Josedith explica o episódio. “Por algumas vezes ela até chorava pois não se lembrava onde estava e queria voltar”.

O marido Jaime Facçanha e Helena; caminhos cruzados desde a juventude (Foto: Dyego Viana)

A recomendação médica foi que em situações como essa, Helena deveria ser levada à antiga casa, que fica a 5 Km da nova residência. Ao chegar e avistar o local se recordou que já não morava mais ali e pediu para voltar ao seu atual lar. Perguntada sobre o episódio, ela esclarece. “Meu filho eu estava perdida. Aí me acharam e trouxeram para cá”. Em sua mente, ela imagina que estava perdida durante a crise.

A verdade é que, ao rever a casa, as lembranças lhe ajudaram a retomar a consciência. Hoje, o lugar foi transformado em um salão de beleza, que de bonito mesmo só traz a fachada, preservada da antiga residência. As memórias de Helena e toda sua família seguem lá, guardadas nas grossas paredes, no piso, na fachada, resistindo a todo e qualquer avanço.

TEXTO: Dyego Viana (Jornalismo – 7º semestre/UNI7)

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