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PRIMEIRA PAUTA: Solitude ou Solidão? O despertar das amizades na pandemia

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Crônicas, Uni7 Informa

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Faz muito pouco tempo que algumas pessoas começaram a diferenciar, ou não, esses dois substantivos que nada significam, ou melhor, que significam nada. A divergência, na verdade, está na aplicação. Na solitude, você aproveita a sua solidão. Engraçado, você se conhece. Na solidão você não tem ninguém.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, minha mãe, que tem uma casa no Quintino Cunha, bairro de Fortaleza, falou que seria interessante a gente ficar por aqui, “no meio dos mato” uma vez que tem menos circulação de carros e poluição. Disse que queria ficar só. A palavra ‘só’ gerou um impacto muito grande. 

Como bem diz seu Ramalho, meu vizinho de 75 anos, que morou por 23 deles na grande Fortaleza, e que sempre se sentiu pequeno em meio a tanta gente, “todos estão aqui”. Interessante! O todo dele é essa criança, a menininha de 7 anos, montada na bicicleta, que quase some da sua vista e da minha também. 

Pode ser algo ruim para a pandemia, mas para saudade, quem dirá? Esta mesma criança visita seu Ramalho, meu vizinho rabugento, toda sexta-feira, desde o início da pandemia. Vem de bicicleta até bem perto da árvore, acena, manda beijos e depois vai embora. O que a falta de tecnologia não faz? Ele, como sempre sentado nesta cadeira, acena, sorri e vê a felicidade por alguns instantes. 

Do seu trono, ele me diz que gostaria de sair de casa e ir trabalhar, como eu. Parece que lembrar todos os dias que é para ficar em casa só agravou ainda mais o sentimento de invalidez. Pelo que me lembro, ele já dizia isso tudo antes mesmo da pandemia, mas eu nunca tinha parado para analisar, afinal, sempre estive muito ocupada.

Após tantas conversas jogadas dentro do portão de casa, o velho rabugento, ao meu ver, literalmente, se tornou um amigo. Um dia desses ele até tomou maior consciência sobre a pandemia e, embora com saudade, exclamou para a neta “ não precisa vim até aqui não, Eliza, eu não me sinto mais tão só, agora tenho uma outra amiga, a vizinha daqui do lado, filha da Maria”. O modo fofoqueiro causado pela pandemia foi acionado naquele instante. Corri para o portão para ouvir tudo. Me senti lisonjeada com a palavra ‘amiga’. 

Agora somos seis membros do grupo ‘vizinhos sem solidão’. Imagine o poder que um senhor sentado numa cadeira meio marrom tem. A partir desse dia, minha família e eu decidimos dar mais atenção e valor ao seu Ramalho. Ele não é somente um rabugento, como eu pensava, é um senhor que tem muito a ensinar e que, após reclusão, aprendeu muito conosco também. Marcamos de tomar café com bolo de milho, que é o seu preferido por sinal, depois que isso passar. Esperamos que passe logo, porque os acenos querem se transformar em abraços faz tempo.

Texto: Nala Jasmine (1º semestre – Jornalismo/UNI7)

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