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Consciência Negra: Tema de reflexão para toda a sociedade Brasileira

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O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro. A data se refere à morte do líder de quilombo Zumbi dos Palmares, ocorrida em 20 de novembro de 1695.

Símbolo de resistência negra na história do país, Zumbi foi uma das maiores influências para o seu povo. Era líder dos Quilombos de Palmares, localizado na Serra da Barriga, fronteira entre os estados de Pernambuco e Alagoas. Caracterizado como uma junção de mocambos, os Quilombos eram pequenas aldeias que os escravos fugidos formavam.

A data é também um momento para refletir sobre a situação da população negra no país. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, 56,10% da população brasileira se considera negra. De acordo com a pesquisa, dos 209,2 milhões de habitantes, 19,2 milhões se assumem pretos e 89,7 milhões se assumem pardos. Para a pesquisa, a soma de negros e pardos caracteriza o total de habitantes negros no Brasil.

Apesar desse índice, que mostra a população negra como maioria, a luta contra a discriminação social ainda é uma batalha diária dessa população. Os negros ainda são minoria nas posições de liderança no mercado de trabalho e entre os representantes políticos no poder Legislativo. Também não têm representatividade na magistratura do país, embora apareçam na pesquisa do Pnad, como maioria no ensino superior público brasileiro.

Os negros também são a maioria entre os desempregados e os subocupados e ocupam posição de destaque entre as vítimas de homicídios. A população carcerária do país também é composta em sua maioria por negros. De acordo com a pesquisa do Pnad, mais de 60% da população carcerária brasileira é formada por negros.

Entre os jovens negros, a luta para ocupar um espaço na sociedade, é constante, diária e persistente. Para muitos, a dívida da escravidão, ainda deve levar séculos para ser paga e a reflexão sobre o assunto entre todas as classes sociais deve ser diária.

O Núcleo de Práticas Jornalísticas (NPJor), do Centro Universitário 7 de Setembro conversou com a jornalista e ativista Alice Sousa. Alice é graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é podcaster do movimento “Kilombas” e dividiu conosco algumas de suas percepções sobre o Dia da Consciência Negra e sua relevância para a sociedade atual.

César Rodrigues: Olá Alice. Seja bem vinda ao Quinto Andar.

Alice Sousa: Olá! Meu nome é Alice Sousa, sou jornalista formada pela Universidade ,Federal do Ceará, sou podcaster do “Kilombas”, movimento que aborda a questão racial. O “Kilombas” surgiu quando eu estava no sexto semestre da graduação e eu queria, dentro desse projeto, falar sobre coisas que me atravessavam enquanto mulher negra dentro de uma perspectiva factual. E falando sobre Dia da Consciência Negra e comunicação, há muitas pessoas que não se tocam do que seja esse dia para exaltar e revisitar as nossas tradições e o que nós temos de tão rico aqui enquanto povo latino-americano e como negros.

C.R. Para você, o que representa o Dia da Consciência Negra para nossa sociedade?

A.S: É um dia muito importante, mas parece que ele é pautado apenas pela população negra, como se a população branca não precisasse se conscientizar racialmente sobre essa questão também. Então, é também um dia para que a população branca reflita sobre a nossa formação como povo, tanto em nível local como nacional. Aqui no Ceará, o racismo está ligado com a questão da classe social, onde a maior parte da população periférica é preta. Então é ampliar esse debate para a população branca também. Porque o racismo não é um problema do povo preto. Não fomos nós que inventamos isso. Nós fomos colocados dentro desse sistema.

CR: Como você analisa a representatividade da população negra no atual cenário político cearense?

A.S: Olha, a gente percebeu um renovação nesse aspecto… Esse ano a gente tem duas mulheres ocupando esse espaço , um espaço de poder e branco , já que a política cearense é branca em sua gênese. É um passo pequeno, mas que pode gerar muitas mudanças. O fato de ter pessoas negras no poder, já é algo muito bom, muito importante.

C.R: A escravidão deixou cicatrizes profundas em nossa sociedade. De que formas você acredita que essas cicatrizes vêm à tona?

A.S: Em vez de cicatrizes, eu gosto de falar sobre heranças porque parece que existem pessoas que se orgulham disso. E eu não vejo que as coisas mudarem muito, sinceramente. Eu vejo que elas apenas se transformaram em outros sentidos. Por exemplo, a grande massa carcerária é preta. O que isso nos diz? O que isso nos mostra? Que a população preta carrega um gene do mal? Não! Apenas mostra que é um projeto mesmo de encarceramento em massa dessa população. Há espaços de poder que são ocupados majoritariamente por pessoas brancas. Existem muitas coisas que a população branca precisa pensar enquanto raça porque eles ,mais do que nós, têm uma obrigação moral com essa questão racial, com histórico de escravidão, que é algo que mancha nossa história enquanto humanidade .

CR: Na sua opinião, como a população branca pode contribuir para acabar com essa segregação racial em que nos encontramos?

A.S: Bom senso, empatia, consciência. Porque não é bondade. É ter consciência de que vivemos numa sociedade que foi estruturada em cima de um processe de escravização e colonial. A gente tem uma sociedade que foi desumanizada. É algo complicado porque isso exige o mínimo de consciência política e humana dessa população ( branca). Porque nós não estamos reivindicando nada além do direito básico de viver, de ir e vir sem ter medo das entranhas do racismo. E isso não é papel nosso. E eu canso de afirmar e reafirmar que combater o racismo não é um papel só nosso ( da população negra). A gente não criou. A gente não é parte. A gente é vítima de toda essa estrutura. E quando eu falo “vítima”, muita gente coloca dentro da conta do vitimismo, que foi uma palavra que ganhou um sentido pejorativo. Mas quando eu falo vítima, eu falo justamente do rapaz que foi assssinado no Carrefour. Quando eu falo de vítima, eu falo de vítimas reais, que a gente consegue contar. Os corpos negros que vemos todos os dias na televisão, não somente no Dia da Consciência Negra.

CR: Qual seria sua mensagem para a sociedade em prol de uma mudança?

AS: Eu não tenho esperança. Eu tenho luta. Muita luta. Não tem nada resolvido. Não tem nada acabado. Não há nada estruturado nos novos moldes. Mas tem muita luta e é na luta que a gente traz a esperança. Porque já é um grande avanço uma pessoa preta alcançar um espaço de poder. Então é nessa luta diária. Esperança parece algo muito vago quando eu paro para pensar no que é a luta de sobreviver todos os dias e ocupar espaços que não foram feitos para você, que não foram pensados para você.

O aluno Vitor Siqueira fala um pouco sobre a Consciência Negra com a participação da Atriz e Ativista Jade Beatriz.

Texto: Monike Lima (2º semestre – Jornalismo/ UNI7) Entrevista: Cesar Rodrigues (2º semestre – Jornalismo/ UNI7)


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