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NOVEMBRO AZUL: Desmistificando o câncer de próstata

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Texto, Uni7 Informa

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A informação como aliada na luta contra a doença e o preconceito

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens no Brasil, com o registro em 2020 de mais de 65 mil novos casos. Esse tipo de câncer possui um crescimento silencioso em sua fase inicial, podendo não apresentar nenhum sintoma, e por isso, é necessário realizar os exames de prevenção. Além do exame de sangue para análise dos níveis de PSA (Antígeno Prostático Específico), o exame de toque retal é essencial para o diagnóstico correto.  

A próstata é uma glândula que se situa logo abaixo da bexiga, na parte final do intestino grosso. Ela envolve a porção inicial da uretra e produz parte do sêmen, líquido que contém os espermatozóides liberados durante o ato sexual. Em sua fase mais avançada os acometidos pela doença podem apresentar dificuldade e aumento na necessidade de urinar, além de sangue na urina ou no esperma. 

De acordo com o médico urologista Ulisses Albuquerque, “é no exame de toque que o médico vai conseguir saber a consistência da próstata, o tamanho aproximado e se tem caroço ou não”, o que é fundamental para o diagnóstico da doença, pois segundo o profissional, “em cerca de 20% dos casos de câncer de próstata o PSA está normal”. Porém, o Dr. Ulisses ressalta que esses exames são o primeiro passo para a identificação da doença, uma vez que após a suspeita, é necessário ainda o exame patológico em microscópio para a confirmação: “pedacinhos da próstata serão examinados pelo patologista no microscópio, e vai ser dada uma nota indicando o quão agressivo é esse tumor”.

Apesar da importância do procedimento, o preconceito e o medo que alguns pacientes possuem sobre o exame de toque dificultam o diagnóstico da doença em seu estágio inicial. Diante disso, foi criada a campanha de prevenção do câncer de próstata chamada Novembro Azul.

O MOVIMENTO DE CONSCIENTIZAÇÃO 

A campanha, que tem como objetivo estimular os homens a realizar os exames de prevenção do câncer de próstata, teve início no ano de 1999 na Austrália, com um grupo de amigos que decidiram deixar o bigode crescer, a fim de chamar atenção para a saúde masculina. O grupo realizava ações pelo país e o dinheiro arrecadado era doado à instituições de caridade. Com o sucesso do movimento, em 2004 foi criada a Movember Foundation Charity, sendo Movember a junção das palavras Moustache (bigode) e November (novembro). Por isso, o bigode juntamente com a cor azul ficaram conhecidos como símbolos da campanha. 

O laço azul é utilizado para representar a campanha
Foto: Victor Uchôa / NPJOR

No Brasil, o movimento chegou pelo Instituto Lado a Lado Pela Vida, em parceria com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Em 2014, o Instituto realizou cerca de 2.200 ações em todo o país. Dentre elas, destacam-se a iluminação de pontos turísticos como o Cristo Redentor com a cor azul,  adesão de celebridades à campanha e corridas de rua. Além disso, foram realizadas palestras informativas, juntamente com intervenções em eventos populares e pedágios tematizados nas estradas de todo o país.

Em 2021, a Prefeitura de Fortaleza também aderiu à campanha iluminando pontos importantes da cidade, como a Praça Portugal e a Estátua de Iracema, com a cor azul para chamar atenção da população para a causa.

O QUE É VERDADE SOBRE O EXAME E A DOENÇA

Existem muitas dúvidas que permeiam a população, tanto sobre os exames necessários, quanto sobre a doença, criando uma resistência nos pacientes e atrapalhando na prevenção do  câncer de próstata. Diante disso, o NPJOR conversou com o médico urologista Bruno Castelo,  para esclarecer dúvidas existentes sobre esse assunto.

Dr. Bruno Castelo, médico urologista
Foto: Acervo pessoal

NPJOR: O exame de sangue substitui o exame de toque?

Dr. Bruno Castelo: Não. O exame de sangue deve ser feito em parceria com o toque retal, jamais um ou o outro. Sabemos que há tumores que não alteram o PSA e outros que não são palpados no toque retal.

NPJOR: O procedimento do toque retal causa dor?

Dr. Bruno: Em uma próstata normal e saudável, o exame é totalmente indolor, mas desconfortável para a maioria dos homens. Ele também é indolor em casos de câncer de próstata. Aqui a alteração é a percepção de nódulos ou áreas endurecidas. Porém, nos casos de infecção da próstata, a prostatite, o toque retal costuma ser doloroso.

NPJOR: A doença só acomete os homens mais velhos?

Dr. Bruno: O câncer de próstata aumenta sua prevalência com a idade, ele muito raramente vai acontecer antes dos 40 anos. Os casos começam a aumentar principalmente a partir dos 50 anos.

NPJOR: Os homens negros possuem maior risco de desenvolver a doença?

Dr. Bruno: Sim. Risco maior de desenvolver e de ter uma doença mais agressiva. Isso acontece por terem uma propensão genética à ativação de oncogenes [genes relacionados com o aparecimento e crescimento de tumores] e redução de genes supressores de tumor associados ao câncer de próstata. 

NPJOR: A prática de exercício físico tem papel relevante na prevenção da doença?

Dr. Bruno: Essa resposta é complexa. Não podemos dizer que há relação direta da atividade física com o risco de câncer de próstata. Por outro lado, há estudos que mostram que obesidade, circunferência abdominal maior que 102 centímetros e hipertensão são fatores de risco para câncer de próstata mais grave, porém isso não é completamente comprovado. Uma das teorias que explica essa hipótese é o fato de os obesos terem naturalmente um valor de PSA menor, o que provoca em alguns casos uma maior demora para que haja o diagnóstico do câncer de próstata, podendo estar relacionado a um câncer mais agressivo.

NPJOR: Só é necessário realizar o exame se tiver sintomas?

Dr. Bruno: Muito pelo contrário. O exame do toque retal associado ao PSA deve ser realizado por todos os homens assintomáticos para rastreamento do câncer de próstata. Esse tumor não costuma causar sintomas, a não ser quando em estágios mais avançados.

NPJOR: O exame deve ser feito a partir de quando? 

Dr. Bruno: A recomendação mais atual indica que seja feito o rastreamento do câncer de próstata para todos os homens com mais de 50 anos. O rastreio deve ser iniciado mais precocemente, aos 45 anos, nos casos com fatores de risco como ter um familiar com câncer de próstata ou ser da raça negra, por exemplo.

NPJOR: O tratamento com radioterapia dói ou queima?

Dr. Bruno: A radioterapia mata as células cancerígenas através de radiação. No momento em que ela é realizada, não há grandes dores ou sintomas. Por outro lado, com o passar dos meses ela pode causar algumas complicações, inclusive dores ou queimação, principalmente quando acomete estruturas vizinhas como a bexiga ou o reto. Essas complicações têm diminuído bastante com as técnicas mais modernas.

NPJOR: O tratamento pode causar esterilidade?

Dr. Bruno: O tratamento do câncer de próstata causa esterilidade pois a pessoa deixa de ejacular após o tratamento. O paciente continua produzindo espermatozóides que podem ser captados por técnicas de Fertilização In-Vitro (FIV), porém, para o método convencional (gravidez natural), o paciente fica estéril.

NPJOR: A cirurgia é agressiva?

Dr. Bruno: A cirurgia já foi muito mais agressiva e associada a várias complicações, como dor, sangramento, disfunção erétil (impotência) e incontinência urinária. Com a modernização das técnicas cirúrgicas, principalmente após a Cirurgia Robótica, as complicações diminuíram bastante, levando os pacientes a terem rápida recuperação, com alta no dia seguinte da cirurgia, sangramento mínimo e rápida recuperação funcional.

NPJOR: Para encerrar, gostaria que o senhor indicasse alguns lugares em Fortaleza para o tratamento da doença.

Dr. Bruno: Todos os principais hospitais e centros ambulatoriais de Fortaleza tem serviço de urologia apto para diagnosticar e tratar o câncer de próstata. Os pacientes devem procurar um urologista de sua confiança para fazer o rastreamento do câncer de próstata, pois é um tumor que, quando descoberto precocemente, tem taxas de cura próximas a 100%.

TRATAMENTO EM FORTALEZA

Os exames de prevenção e detecção do câncer de próstata, principalmente o de toque retal, podem ser realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de forma gratuita em todos os postos de saúde e policlínicas de Fortaleza. Caso exista um diagnóstico da doença, os pacientes podem procurar alguns centros de tratamento gratuitos na cidade: Centro Regional Integrado de Oncologia (CRIO), Instituto de Câncer do Ceará (Cacon) e o Hospital Geral de Fortaleza.

Texto: Hugo Eduardo Sousa (2º semestre / Jornalismo) / João Pedro Pacheco Artuzo (1º semestre / Jornalismo)

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