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HALLOWEEN: Valorização da cultura nacional é questionada no “dia do terror”

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Texto, Uni7 Informa

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Um dia para enaltecer aspectos do folclore brasileiro

O Halloween é comemorado em todo o mundo no dia 31 de outubro. Essa festa de terror, em que as pessoas vão às ruas fantasiadas pedindo doces, vem ganhando muita popularidade ao redor do mundo, incluindo no Brasil, onde o festival é conhecido como Dia das Bruxas.

Ao contrário do que muitos pensam, a festa não surgiu nos Estados Unidos. Com origem na Irlanda, o Halloween foi criado a partir de um festival celta chamado Samhain, que comemorava o fim do verão no dia 1º de novembro, ganhando popularidade também no Reino Unido. Diante disso, a Igreja Católica mudou o Dia de Todos os Santos para a mesma data, misturando as comemorações pagãs e as tradições católicas do festival romano dos mortos.

Entretanto, as comemorações eram diferentes do que conhecemos hoje. Tanto pagãos quanto cristãos acreditavam que no dia 31 de outubro existia uma conexão entre o mundo espiritual e material. Por acharem que os espíritos poderiam fazer algum mal à população, foi criado o hábito de realizar rituais nessa data como fazer fogueiras e jogar moedas dentro de caldeirões, além de bater de porta em porta em busca de um pedaço de “bolo de alma”, fazendo orações para os doadores.

A POPULARIZAÇÃO DO HALLOWEEN

Durante os anos de 1845 a 1849, a Irlanda viveu um período conhecido como a “Grande Fome”. Nesse tempo uma contaminação nas batatas, principal fonte de alimento na época, gerou a morte de mais de 1 milhão de pessoas e forçou a migração de outro milhão para os Estados Unidos e Canadá. A migração não inibiu as manifestações culturais daquele país,  a população irlandesa manteve suas tradições, incluindo o Samhain,  adaptando-o aos costumes locais da América. Nos Estados Unidos a abóbora virou o símbolo do dia, e o antigo ritual do “bolo de alma” transformou-se no pedido de doces pelas crianças fantasiadas nas ruas.

Com o passar do tempo, a festa foi popularizada no país e começou a ser reproduzida nas mídias em grande escala, atingindo outros lugares do mundo como o Brasil.

O DIA DAS BRUXAS NO BRASIL

No Brasil, o Dia das Bruxas vem ganhando maior popularidade principalmente pela influência do cinema americano, com filmes de grande sucesso que abordam o tema como “Halloween”, exibido em 2018. Além da comemoração da festa em casas noturnas, muitas escolas de língua inglesa adotaram essa tradição como mecanismo de contato entre os alunos e a cultura do exterior.

Na cidade de São Paulo existe também o evento chamado “Zombie Walk”, no qual diversas pessoas se juntam para realizar uma marcha caracterizados de zumbis. Apesar de acontecer no dia 2 de novembro, feriado do Dia de Finados, o evento é bastante relacionado ao Dia das Bruxas pela proximidade das datas e a caracterização aterrorizante dos participantes.

O Dia das Bruxas não é muito bem aceito por parte da população brasileira por dois motivos: além de a grande maioria ser cristão e não apoiar a comemoração de figuras de terror, algumas pessoas acreditam que a implementação de festivais estrangeiros desvaloriza a cultura local.

Com o objetivo de valorizar personagens do folclore e a cultura brasileira, em contraposição ao Dia das Bruxas, no dia 13 de janeiro de 2004 o Estado de São Paulo oficializou, por meio da Lei nº 11.669, o dia 31 de outubro como o “Dia do Saci”. 

O DIA DO SACI

Segundo o jornalista e pesquisador Andriolli de Brites, “o Dia do Saci foi criado com o propósito de ser um movimento de enfrentamento, juntamente com a sociedade de observadores de Saci”. Andriolli diz que a sociedade foi “ fundada por um grupo de Saciólogos que queriam valorizar a cultura brasileira, e naquele momento, estavam sentindo uma nítida invasão imperialista por meio do Halloween”. Andriolli também comenta sobre sua visão a respeito da comemoração do Dia das Bruxas pelos brasileiros: “Não sou contra que se comemore o Halloween pra quem quiser. Eu acho que o caminho é mostrar que têm outras alternativas”.

O Dia do Saci é criado para valorizar a cultura nacional em contraposição ao Halloween
Ilustração: Bernardo Barros / NPJOR

Quanto a origem do mito do Saci, o pesquisador diz que não existe origem certa para nada quando se fala de folclore. Existem origens que se entrecruzam e chegam a formas muito próximas que a gente conhece hoje”. O relato mais consistente sobre a origem do Saci diz que ele surgiu entre os índios Guarani, onde a figura folclórica era vista como um protetor da natureza. Essa lenda ganhou novas características. Inicialmente, era vista como uma pessoa negra que teria perdido a perna em uma luta de Capoeira, influência da cultura africana trazida pelos escravos. Logo após foi acrescentado um cachimbo, que marcava as características dos povos indígenas. Outra mudança que ganhou força entre seus traços foi a retirada do cabelo vermelho, substituído por um gorro que trazia marcas parecidas com uma lenda portuguesa, o Trasgo, conhecido também por suas travessuras.

A lenda do Saci-pererê o descreve como um ser com características agitadas e muito travesso. Suas histórias mais conhecidas estão envolvidas com o ato de amedrontar cavalos de diversas formas, deixando sempre no final um nó na crina dos animais. Assustar viajantes e invadir casas são os depoimentos mais contados entre moradores do interior sobre a lenda. A forma de captura do menino travesso consiste em jogar uma peneira no meio de um redemoinho, retirando logo em seguida seu gorro e fazendo com que perca seus poderes. A lenda diz que após 77 anos, o Saci se transforma em um cogumelo venenoso ou em um cogumelo conhecido como “orelha-de-pau”.

O Saci era popular entre algumas famílias antigamente, como conta Andrielli:“Esse mito se populariza a partir do século 19. Encontramos os primeiros registros em 1850, de pessoas tentando resgatar histórias que ouviram das suas avós. Então a gente consegue dizer que o Saci surge mais ou menos final do século 18”. Mais tarde, em 1917, o escritor Monteiro Lobato decidiu fazer um inquérito no jornal O Estado de São Paulo, com o objetivo de receber relatos dos moradores do interior acerca da lenda do menino travesso. Monteiro Lobato recebeu inúmeros relatos, o que o levou a escrever o livro “Sacy-pererê, o resultado de um inquérito”, publicado em 1918, e também uma obra infantil chamada de “O Saci”, publicada em 1921. Além disso, o autor inseriu o mito folclórico em sua obra de maior sucesso, o “Sítio do Picapau Amarelo”, popularizando assim a história do Saci em todo o território nacional e se consolidando na literatura.

Atualmente, a história do Saci ainda é muito importante para a cultura nacional e é conhecida pela maioria dos brasileiros. Para Andrielli, “o mito ainda permanece relevante pelo simbolismo que ele carrega, sendo coerente pra gente, por representar enfrentamento ao poder, resistência pelo deboche e busca pela liberdade. Esses poderosos que o Saci enfrentava como fazendeiros e senhores de escravos, estão até hoje, deixando o mito tão atual”.

Confira nosso programa especial que celebra o Halloween:

Texto: Hugo Eduardo Sousa (2º semestre / Jornalismo) / João Pedro Pacheco Artuzo (1º semestre / Jornalismo)

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