Notícias

Para quem tem quase todos os parafusos: uma análise do webjornalismo na revista Piauí

Categoria:

Artigos, Texto, Uni7 Informa

0

Vitoria Rodrigues Oliveira 

Centro Universitário 7 de Setembro 

Sumário: 1. Introdução. 2.Instantaneidade. 3.interatividade. 4.Hipertextualidade. 5.Memória. 6.Personalização. 7.Multimidialidade. 8. Considerações finais. 9.Referências bibliográficas.

Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar a revista piauí, tendo como base o livro “Webjornalismo: 7 caraterísticas que marcam a diferença”, organizado por Canavilhas (2014).  O artigo analisa e aponta quais das características elencadas no livro instantaneidade, interatividade, hipertextualidade, memória, personalização, ubiquidade e multimidialidade se aplicam tanto na revista, como também nas suas redes sociais digitais.

Palavras chaves: Webjornalismo; revista piaui; web; características. 

  1. Introdução

Em outubro de 2006, chegava às bancas uma nova revista mensal, que se diferenciava das outras: a revista piauí. Foi idealizada pelo cineasta João Moreira Salles e inspirada na revista norte americana The New Yorker

A ideia era criar uma revista que tivesse uma linha editorial totalmente diferente das publicações no Brasil.  A revista tem um viés político e cultural, diferente das outras revistas. A piauí não trata de temas factuais, mas sim de assuntos que fogem desse agendamento.  

Atualmente, 15 anos depois, a revista é independente, tendo o seu conteúdo hospedado no site da Folha, por meio de uma parceria. A piauí é uma das principais publicações formadoras de opinião no país.

Este artigo se dispõe a analisar quais das características do webjornalismo a revista Piauí utiliza, para compreender a forma como disponibiliza seu conteúdo e como se relaciona com o seu público.

2 Instantaneidade

Segundo Paul Bradshaw (2007), relacionar velocidade à atividade jornalística sempre fez sentido, afinal, as notícias são, em essência, novidade. No século XIX, levava várias semanas e até mesmo meses para que algo fosse divulgado como noticia nova. Já nessas primeiras duas décadas do século XXI, a criação de conteúdo para a web não tem mais as restrições que ditavam os processos de captação, produção e distribuição da notícia nas redações de antigamente, como a lentidão tecnológica de produção e de distribuição.

O conteúdo produzido pela piauí traz essa instantaneidade e apuração dos fatos, além de fazer utilização de imagem como informação. A revista adota a estratégia de narrar a história de uma forma mais aprofundada e abrangente, tendo textos autorais e longos, o que a difere das outras revistas. 

Gostamos de imaginar que somos uma revista serena, que dá tempo a seus jornalistas para que trabalhem, e que isso não é sinônimo de lentidão, mas de apuro. Talvez tenhamos sido influenciados pelas nossas leituras de criança, quando aprendemos que nem sempre a lebre vence a corrida (REVISTA PIAUÍ.)

A piauí é destaque em relação a matérias exclusivas.  Um exemplo foi o caso da humorista da Rede Globo, Dani Calabresa, que contou à revista sobre os assédios sexuais que disse sofrer de Marcius Melhem, também humorista da Rede Globo. O papel desempenhado pela revista no desenrolar dos fatos teve um impacto nos jornais e sites nacionais, que reverberaram a notícia exclusiva. (Figura 1 e Figura 2 ). O que remete ao que diz Bradshaw, quando observa que

“Caso o veículo não conseguisse ser o primeiro a divulgar a estória, então teria de ser o primeiro a obter a primeira fotografia, a primeira entrevista, a primeira reação, ou o primeiro a fornecer a análise do fato” Bradshaw (2007, p 118).

Figura 1- Postagem de um portal de notícias no Twitter. Acesso: 26 de abril de 2021. Disponível em https://twitter.com/papelpop/status/1334858278258552832 

Figura 2 – Matéria no portal O Povo sobre a notícia vinculada pela piaui. Acesso: 26 de abril de 2021. Disponível em https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2020/12/04/revista-detalha-denuncia-assedio-sexual-marcius-melhem-a-dani-calabresa.html 

Neste caso, a piauí foi o primeiro meio de comunicação a contar os relatos da humorista Dani Calabresa. E é isso que Bradshaw (2007) explica em ser o primeiro, o veculo de comunicação foi o primeiro a verificar os fatos, a agregar e a distribuir a matéria.

  1. Interatividade 

Sendo parte importante da comunicação para a web, a interatividade é a ponte entre o leitor e o conteúdo, uma relação entre o computador/celular e o usuário. É definida como a comunicação feita do leitor com o conteúdo web que ele consome, dentro das redes sociais digitais.

Entendemos interatividade como a capacidade gradual que um meio de comunicação tem para dar maior poder aos utilizadores tanto na seleção de conteúdos como em possibilidades de expressão e comunicação. (Rost,2006, p. 62)

Para Alejandro Rost (2006), a interatividade é uma forma de transferir o poder de quem cria para quem consome, e esse poder do consumidor foi aumentando ao longo dos anos. Na internet, as possibilidades para interação têm se ampliado.

As redes sociais digitais impulsionaram esse tipo de interação, leitor e conteúdo, permitindo que o leitor tenha mais interação e liberdade dentro do conteúdo produzido. Na revista piauí essa interatividade acontece devido às redes sociais digitais como Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp e no próprio portal da revista. 

A piauí conta com a primeira agência de fact-checking do Brasil, a Lupa. Em 2021, a agência expandiu sua comunicação para o WhatsApp, e os usuários podem mandar sugestões de verificação para serem analisadas pela equipe da Lupa. 

O WhatsApp tem implementado diversas medidas de combate à desinformação, tanto dentro quanto fora da sua plataforma. Uma das iniciativas de destaque é a parceria com organizações de checagem de fatos no Brasil e em diversos países. A recém-firmada parceria com a Lupa para a criação de um canal no WhatsApp ampliará o acesso dos usuários a informações confiáveis dentro do aplicativo e somará esforços na luta contra notícias falsas. (Dario Durigan, diretor de Políticas Públicas do WhatsApp no Facebook Brasil.)

Em uma entrevista para a própria revista, a diretora de conteúdo da agência, Natália Leal, afirma que a ferramenta amplia o alcance do trabalho da Lupa. (Figura 3). 

Figura 3 – Matéria no portal da piauí sobre a expansão da Lupa. Acesso: 29 de abril de 2020. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/10/22/lupa-canal-whatsapp/

Além do WhatsApp, a piauí também é presente no Instagram, com cerca de 308 mil seguidores, no Facebook, com 429 mil seguidores e no Twitter com 1,5 milhões de seguidores. Mesmo com largo alcance, e tendo vários canais, a piauí não tem muita interatividade nas redes sociais digitais. Esta acontece somente com o compartilhamento das matérias e dos podcasts, e o link para o acesso. É no Instagram que se encontra alguma forma de interatividade, com as ferramentas de destaques e lembretes para a divulgação dos podcasts.

Já no site, a piauí deixa disponível a aba “Fale conosco”, caso o leitor queira mandar alguma mensagem ou sugerir algo para o site (Figura 4). Além disso é possível compartilhar as notícias, ter acesso às redes sociais digitais e aos podcasts por meio do hiperlinks. (Figuras 5 e 6) 

Figura 4 – Print da área do usuário no portal da revista. Acesso: 30 de abril de 2020. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/ 

Figura 5 – Print de onde compartilhar alguma matéria. Acesso: 30 de abril de 2020. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/ 

Figura 6 – Print das redes sociais da revista. Acesso: 30 de abril de 2020. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/

Esses tipos de compartilhamentos possibilitam o leitor a ter uma interatividade maior com a revista. 

  1. Hipertextualidade 

A hipertextualidade é uma característica que visa ajudar ao leitor a ter uma atividade mais interativa na rede. É possível adicionar sons, vídeos, imagens e gifs, fazendo parte da informação de forma associativa, por meio de links ou hipertextos, levando o usuário ao aprofundamento.

O conceito de hipertexto foi usado pela primeira vez nos anos 60 do século passado por Theodor Nelson, que definiu como uma escrita não sequencial, um texto com várias opções de leitura, que permite ao leitor efetuar uma escolha.

Segundo Salaverría (2005), o hipertexto é o grande responsável por essa variedade de estilos de redação. Ele afirma que é possível manter a concisão descritiva em um texto principal e ampliar os detalhes sobre os acontecimentos ou personagens envolvidos em desdobramentos apresentados ao longo deste texto principal.

O usuário participa de uma interatividade, na qual ele escolhe os links que darão continuidade à informação. No acompanhamento do material da piauí é possível observar que esta faz o uso das ferramentas de hiperlinks e hiperligação em todo seu portal e redes sociais digitais. 

No portal, é possível ter acesso aos podcasts da revista ao clicar em “Rádio Piauí” e ser redirecionado para a aba onde tem todos os podcasts para compartilhar e ouvir. (Figuras 7, 8 e 9). 

Figura 7  – Print da “ rádio piaui” no portal. Acesso: 16 de maio de 2021. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/radio-piaui/ 

 Figura 8 – Print dos canais de compartilhamento dos podcast. Acesso: 16 de maio de 2021. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/radio-piaui/foro-de-teresina/ 

Figura 9 – Print do Spotify. Acesso: 16 de maio de 2021. Disponível em https://open.spotify.com/show/04bTe3UuVaZVDKV9ORFN4Y?si=LsbyoGM_Tw2pzhKqD8qpJQ&nd=1 

A matéria “Batalhadores do Brasil …”, 23 de maio de 2021 mostra um texto longo sobre as pesquisas entre o ex-presidente Lula e o atual Jair Bolsonaro. No decorrer do texto encontra-se o primeiro hiperlink, que retorna a uma matéria publicada em fevereiro de 2021, e logo vem o segundo hiperlink, sobre um artigo postado em abril do mesmo ano, que também tem relação com a matéria. (Figura 10)

Figura 10 – Print da matéria “Batalhadores do Brasil”. Acesso: 16 de maio de 2021. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/materia/batalhadores-do-brasil/ 

Neste caso o hiperlink ainda pode ser associado a outra característica da web, a memória, pois relembra um acontecimento.

  1. Memória 

A memória facilita a navegação do usuário, sendo um armazenamento e acúmulo de informações no meio online. Segundo Palácios (2009), as redes digitais disponibilizam espaço virtualmente ilimitado e a informação pode ser produzida, recuperada, associada e colocada à disposição dos públicos-alvo visados.

Em outras palavras, além do incremento do uso da memória como ferramenta narrativa pelos produtores de informação jornalística, um processo de empowerment está ocorrendo no que diz respeito à construção de contextos para as notícias por parte do próprio usuário através da memória arquivada e os conteúdos das bases de dados à sua disposição. (Palácios, 2009, p.103)

No site da revista, pode-se encontrar na parte superior uma lupa de pesquisa; essa ferramenta possibilita ter o acesso a matérias, vídeos ou fotos antigas. (Figura 12).

 Figura 12 – Barra de pesquisa no portal. Acesso: 05 de maio de 2021. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/ 

Com todo espaço disponível na rede e a facilidade de produzir “notícias”, cada pessoa pode se tornar um produtor potencial de memória e testemunhos. 

  1. Personalização 

A personalização permite ao usuário que ele escolha a informação do seu interesse, através de um guia que o redireciona para as notícias ou para outras informações que estavam na guia. Para Palácios (2002) essa é a função da personalização na web. O autor explica que

Há sites noticiosos que permitem a pré-seleção dos assuntos, bem como a sua hierarquização e escolha de formato de apresentação visual (diagramação). Assim, quando o site é acessado, a página de abertura é carregada na máquina do Utente atendendo a padrões previamente estabelecidos, de sua preferência. (PALÁCIOS, 2002 e p 1)

No site da revista, encontra -se um guia na parte superior, que contém de assuntos sobre pesquisa, ‘Assine’ e a área do assinante. Os guias são “A Revista”, uma área em que o usuário pode ter acesso a notícias e às capas antigas da revista; e a “Rádio piauí”, na qual, ao acessar, o usuário será redirecionado para os podcasts da revista. Existem ainda as “Especiais”, que são as séries de reportagens de um determinado assunto; a “Herald”, que é a área de política da revista; a “Lupa”, como a primeira agência de fact-checking do Brasil; e “Eventos”, uma galeria de fotos e vídeos de eventos que a revista participou. (Figura 13) 

Figura 13 – A “guia” do portal. Acesso: 05 de maio de 2021. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/  

Ao final da página são disponibilizadas mais informações sobre a revista. A piauí também disponibiliza versões em espanhol e inglês. O “siga nos” já redireciona o usuário para as redes sociais digitais da revista (Figura 14). 

Figura 14 – Extensão da “guia” na parte inferior do portal. Acesso: 05 de maio de 2021. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/  

Na versão mobile essas informações são na lateral. Essas características se encaixam na padronização de web.

  1. Multimedialidade  

Para Pierre Lévy (1999), o termo multimídia significa, em princípio, aquilo que emprega diversos suportes ou veículos de comunicação. O autor destaca que, quando uma informação é apresentada em mais de um suporte, sendo textos, imagens e áudio temos, portanto, uma informação multimodal, pois afeta mais de um sentido humano (a visão, a audição, o tato e as sensações proprioceptivas).

“Em segundo lugar, a palavra “multimídia” remete ao movimento geral de digitalização que diz respeito, de forma mais imediata ou distante, às diferentes mídias” (Pierre Levy, 1999, p. 63)

A revista Piauí, além do site, está presente nas redes sociais digitais Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp , e no YouTube e no Spotify. A piauí compartilha os mesmos assuntos em todas as plataformas. No YouTube, é composto pelo compartilhamento dos mesmos episódios que estão disponíveis no Spotify. 

Percebe-se que a piauí tem um certo grau de repetição das postagens de seus conteúdos, e a excessiva redundância nas redes sociais digitais pode causar “aborrecimento” no usuário. (Figuras 15 e 16)

 Figura 15 – Print da playlist do canal no youtube da revista. Acesso: 18 de maio de 2021. Disponível em https://www.youtube.com/user/revistapiaui                             

 Figura 16 – Print da playlist no Spotify. Acesso: 18 de maio de 2021. Disponível em  https://open.spotify.com/show/04bTe3UuVaZVDKV9ORFN4Y?si=LsbyoGM_Tw2pzhKqD8qpJQ&nd=1 

Outra característica marcante da piauí são as suas charges irônicas e cômicas. A charge sempre vem em sintonia com o texto.

  1. Considerações finais  

A análise da revista piauí possibilitou perceber detalhes característicos das notícias nas redes sociais digitais e no site da revista. O site tem ferramentas que ajudam a interação com o usuário. Dessa maneira, pode-se dizer que as características da web são aplicadas ao webjornalismo da piauí. Diante disso, a única característica ausente na revista é a ubiquidade. O webjornalismo ainda está se descobrindo e ampliando a sua forma de se manifestar em todo o mundo, e a cada dia existirão mudanças, porém as informações continuarão chegando de forma rápida e eficiente a todos.

9 Referências bibliográficas

CANAVILHAS, João, Webjornalismo: 7 características que marcam a diferença, diponivel em https://ubibliorum.ubi.pt/bitstream/10400.6/4336/1/LIVRO_Webjornalismo_7.pdf 

LEVY, Pierre. Cibercultura. Disponível em https://mundonativodigital.files.wordpress.com/2016/03/cibercultura-pierre-levy.pdf

NATANSOHN, Graciela, Jornalismo de revista em redes digitais, disponível em 

https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/16777/1/jornalismo-de-revista-em-redes-digitais.pdf

PALACIOS, Marcos. Jornalismo Online, Informação e Memória: Apontamentos para debate. Disponível em http://www2.eca.usp.br/pjbr/arquivos/artigos4_f.htm 

PIAUÍ, Revista. Pra quem tem um parafuso a menos. Disponível em   https://piaui.folha.uol.com.br/  

REGES, Thiara Luiza da Rocha, Características e gerações do Webjornalismo: análise dos aspectos tecnológicos, editoriais e funcionais. Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/reges-thiara-caracteristicas-e-geracoes-do-webjornalismo.pdf

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 + 12 =

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.