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ANSIEDADE: As consequências que a autocobrança provoca na saúde mental

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Transtornos derivados do problema psíquico são os mais atendidos pelos especialistas, que dizem que os números são decorrentes do estilo de vida acelerado

O Brasil é líder mundial no índice de ansiedade, segundo os últimos dados publicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No país, 9,3% dos brasileiros apresentam sintomas da patologia, sendo 7,7% do sexo feminino e 3,6% do sexo masculino. O número chega a ser três vezes maior do que em outros países da América do Sul, como no Chile, Uruguai e Paraguai.

Hoje, o cotidiano das diversas sociedades têm colocado as pessoas em um estilo de vida frenético e sob alta cobrança, como explica a psicóloga social e clínica, Evelyn Freitas, 28, da Rede Cuca de Fortaleza. “Somos cobrados como se fôssemos máquinas. Nosso corpo não funciona no ritmo de um computador, somos da época da carta: escreve, tem um tempo para enviar, para receber e para ter uma resposta. Aos 30 anos já se cobra uma estabilidade que nossos pais alcançaram entre os 40 e 50 anos”.

Jovens na Rede Cuca de Fortaleza recebendo atendimento da psicóloga social

A especialista explica que a ansiedade é um sentimento natural que se apresenta diante do novo, do desconhecido e da espera. Ela destaca que: “o problema é quando vivenciada em excesso, ou seja, quando passa a atrapalhar o cotidiano do ser humano. Então aí temos um distúrbio de ansiedade, um problema psíquico, que afeta corpo e mente”.

Evelyn revela que atualmente os casos de ansiedade estão entre as principais demandas que recebe para atendimento. De acordo com a psicóloga, algumas das razões pela procura são as dificuldades em lidar com problemas, sentimentos fortes ligados à preocupação e medo. “Vejo isso lincado à grande necessidade de perfeição cobrada atualmente pela nossa sociedade”, ressalta.

“Vejo isso lincado à grande necessidade de perfeição cobrada atualmente pela nossa sociedade”
Evelyn Freitas, 28

Dentre os sintomas da ansiedade estão “taquicardia, falta de ar, aperto no peito, alterações de humor, medo constante, falta de concentração, dificuldade para dormir, tensão muscular, tontura e sensação de desmaio”, observa a psicóloga do Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) de Itapajé, Morgana Barroso Gomes Bastos, 29.

Ao identificar os sintomas, o passo seguinte é falar com alguém de confiança sobre os sinais e, em seguida, buscar ajuda profissional. “Em alguns casos, a ansiedade está associada à depressão e uma das principais diferenças entre depressão e ansiedade é que o primeiro termo se refere a um único transtorno, enquanto o segundo engloba várias condições. Depressão é uma doença e pode se manifestar de diferentes formas, de acordo com o paciente”, explica Morgana.

A psicóloga esclarece que a orientação para terapias e tratamentos depende de cada caso. Alguns são tratados apenas com psicoterapia ou análise, enquanto em outros casos necessitam começar com terapia medicamentosa. A profissional ainda recomenda dicas para o controle da ansiedade: “a ideia de sofrer por antecedência é a de viver o futuro e não no presente. Então, essas pessoas devem tentar, pelo menos, pensar e viver mais no presente, no que está acontecendo agora. E sobre as preocupações futuras, deixar para pensar quando chegar esse futuro”.

Morgana Barroso atuando no Centro de Atendimento Psicossocial Geral de Itapajé

A recomendação das especialistas sobre o que fazer durante uma crise de ansiedade é trabalhar exercícios de respiração para conseguir voltar ao controle da situação, inspirando e expirando lentamente, fazer alguns exercícios de relaxamento para as áreas musculares mais tensas, como o rosto e os ombros. Por fim, buscar um ambiente mais confortável, amplo, arejado e, se possível, arborizado e ventilado.

A descoberta e a rotina de quem sofre de ansiedade
A estudante de jornalismo Alexia Vitória Castro Vieira, 20, da Universidade Federal do Ceará (UFC) descobriu a ansiedade aos 14 anos, quando mudou de colégio, de bairro e passou a estudar em colégio central. Alexia explica que os estudos começaram a ser mais intensos, o que influenciou muito. “Antes eu era aluna nota 10, sempre era a melhor da sala. Depois da mudança, as notas baixaram e a partir do ambiente ruim, comecei a perceber a ansiedade, assim como de ficar longe dos amigos”. Acrescenta que no mesmo ano, 2013, perdeu a avó, o que também afetou os sentimentos.

A estudante descreve como decidiu procurar por ajuda de um especialista: “Logo depois que aconteceram todas essas coisas, pedi a minha mãe para ir a psicóloga, porque tava com pensamentos muito horríveis. E descobri a ansiedade. Os sintomas eram aperto no peito, pensamentos ruins… Por exemplo, quando eu ligava para a minha mãe e ela não atendia, pensava logo em alguma coisa mais trágica”. E relata como foi enfrentar a patologia na época: “foi complicado quebrar esses padrões da mente e a complicação com as questões da escola, autoestima, em relação às notas ruins. E eu me rebaixava muito nesse sentido e só aumentava a ansiedade”.

Quanto às crises, Alexia explica que elas costumam variar o tempo. “Tem época que a crise dura um mês, uma semana, duas semanas. Esses períodos maiores, com vários dias de ansiedade, são meio disfarçados. Eu fico agoniada, correndo pra tudo, sem conseguir respirar direito, sem conseguir deixar a mente clara para fazer as coisas. É como se eu tivesse sempre um bilhão de preocupações, mas se pedir pra eu listar elas, só são três. É uma tempestade em copo d’água”.

“Tem época que a crise dura um mês, uma semana, duas semanas” Aléxia Vitória, 20

Os fatores que funcionam como gatilhos para as crises de ansiedade são quando surgem imprevistos ruins relacionados ao que mais se importa, como família, relacionamentos amorosos, amigos ou com o trabalho. Outro é quando não se cuida, quando se dedica tempo demais trabalhando e não se tem espaço para pensar e fazer o que gosta de fazer sem obrigações. Uma das técnicas que Alexia usa para controlar uma crise é falar com os amigos e a família. “Tento falar com os amigos, principalmente em crises de pânico, quando não consigo levantar da cama ou quando estou no trabalho e quero ir embora”.

Por fim, a estudante define a ansiedade como uma luta diária e diz que faz terapia semanalmente com uma psicóloga. “Tento seguir tudo que a psicóloga fala; coloco em prática as técnicas, os pensamentos que tenho na terapia. Mas é muito difícil, porque o mundo está o tempo todo enlouquecendo e, às vezes, não consigo parar pra desestressar, respirar. Não tem solução, tem épocas melhores e épocas que volta tudo. Mas ultimamente tô nos dias bons”.

Texto: Bianca Kethulen (6º semestre – Jornalismo/UNI7)
Fotos: Arquivo pessoal

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