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PERFIL: Saudosas lembranças

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Reportagens

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Uma conversa que transcende o tempo e revitaliza memórias

O estereótipo de mulher idosa não se aplica neste caso. Esqueça os cabelos brancos, os óculos baixos, o vestido longo de algodão e o tricô. O modelo romantizado de avó não se encaixa a Maria Vilalba. Um vestido em tom verde vivo, adornos prateados, cabelo impecavelmente arrumado. Ao longo de seus 85 anos bem vividos, não há quem se atreva a acertar-lhe a idade.

Atenciosa e muito bem humorada, Vilalba relembra, saudosamente, suas peripécias, típicas de uma menina do interior, as emoções vividas durante a adolescência, sempre enfatizando as poucas experiências amorosas, as dificuldades enfrentadas em toda a vida. A idade se mostra implacável no esquecimento comum da idade, relevando fatos não tão notáveis na sua trajetória de vida.

Lembrando-se dos causos da vida adulta, ela comenta o despertar do amor pelo marido – o que rende boas risadas –, Jefferson de Oliveira, um senhor de 84 anos, companheiro de vida há mais de meio século. Um belo casal, com intrigas típicas da convivência longínqua.

Entre uma conversa e outra, atenta para a decoração de sua residência, o seu xodó, em que reside há 46 anos. Mesas, cadeiras, poltronas, jarros de plantas, Vilalba mostra um a um, explicando afetuosamente os seus significados.

Excepcionalmente neste dia, ela dispensa o cochilo da tarde, hábito religiosamente cumprido diariamente. O relógio marca 14h30, e, como de costume, esbraveja à sua secretária, pedindo-lhe o tradicionalíssimo café com tapioca de todas as tardes. “Calma, dona Vilalba! O café sai já. Desculpe o alvoroço, senhor. Todo dia é assim”, observa Nova, a secretária.

Entre um gole e uma mordida, oferece pães, bolo e tudo que se possa imaginar, vindo de sua padaria, a Panificadora Pacatuba, a mais tradicional da cidade, em atividade há 42 anos. Ao término da refeição, ela, como numa personificação de criança levada, limpa a boca na toalha de mesa.

Vilalba, sempre sorridente, na Panificadora Pacatuba, a mais tradicional da cidade, em atividade há 42 anos

Ela nos conduz ao terraço da residência, sempre falante, e relata um episódio complicado em sua vida. Em meados de 2016, foi diagnosticada com um nódulo no seio, que veio a agravar-se e transformou-se em câncer de mama. Apesar das condições adversas, como idade e progressão da doença, o caso foi solucionado após a remoção cirúrgica do nódulo e sessões de radioterapia. Ela mostra as marcas avermelhadas deixadas pelos raios, próximas à sua axila esquerda.

Vilalba convida para conhecermos a famosa Panificadora Pacatuba, localizada há um quarteirão de sua casa, no centro comercial da cidade. No trajeto a pé, em passos curtos e sorrisos nos rostos, deparamo-nos com diversos “oi, dona Vilalba”, “boa tarde, dona Vilalba”, dos transeuntes da pacata cidade, transparecendo o reconhecimento da simpática senhora.

Ao chegarmos ao estabelecimento, fomos recepcionados pelo seu filho, Jefferson Júnior, atual administrador. Ele se oferece para apresentar o local, mas dona Vilalba logo toma as rédeas da situação e faz a apresentação do espaço, orgulhosa. Ela cumprimenta cada um de seus seis funcionários, comentando suas peculiaridades.

Após a andança pela panificadora, sentamo-nos na calçada para observarmos a movimentação de pessoas, hábito comum no centro da cidade. Logo, mais pedestres, ciclistas, motoristas com suas buzinas, tendem a cumprimentar a senhora em sinal de respeito e admiração.

O nosso encontro aproxima-se do fim, quando uma jovem mulher de cabelos grisalhos – aparentando não mais do que 60 anos – vem em nossa direção, cumprimentando dona Vilalba. Era Socorro Souza, mais conhecida como Corrinha, que havia sido aluna de Vilalba na extinta Escola Municipal Crispiana de Albuquerque. “Meu filho, essa senhora me traz ótimas lembranças dos tempos de menina. É uma mulher maravilhosa!”, conta Corrinha. Com a chegada da jovem senhora, um novo assunto é introduzido na conversa.

O fato de dona Vilalba ter sido professora na cidade. Há quase cinquenta anos sem lecionar, ela relembra alunos, disciplinas e histórias antes consumidas pelo tempo, como quando dava aula a iluminação de lamparina e as peripécias dos alunos.

As horas passam como num estalar de dedos e logo escurece. Após uma tarde de muitos relatos e memórias expostas, chega o momento da despedida. Cumprimento dona Vilalba e me despeço com um imenso agradecimento. A partir daquele dia, minha percepção sobre a terceira idade jamais será a mesma.

Texto: Rodrigo Costa (6º semestre – Jornalismo/UNI7)

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