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PERFIL: A vida do de antigo pescador Antônio Pereira

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Nascido na Prainha, em Aquiraz, viu na pesca uma forma de ajudar a família

Eles entram no mar quando o sol está nascendo e voltam quando já está entardecendo. Jogam a rede de pesca ou o galão, esperam ela afundar, torcem para a leva de peixe ser boa quando puxam e jogam novamente a rede…. Esses movimentos fazem parte da vida de um pescador. E, para encontrar o personagem ideal para se juntar a nós nessa história, fomos, ao amanhecer, ao Mercado dos Peixes, localizados no final da Avenida Beira Mar, na região do litoral leste da capital cearense.

O mercado foi inaugurado na década de 1960, com o intuito de ajudar no comércio de peixes e frutos do mar. E, para que a comercialização não acontecesse em vias públicas, a prefeitura de Fortaleza construiu pequenos boxes e os distribuiu entre os pescadores. Nessa época no final da avenida havia uma colônia de pescadores muito grande.

Em 2013 o mercado passou por uma reestruturação, dividido em 45 boxes, com 14m2 cada. Foi procurando pelos corredores do local que encontramos o ex-pescador Antônio Pereira, 64, ou, como ele diz, ser conhecido no mercado “Cabacinho”. Com sua voz bem-humorada, muito bem arrumado, com camisa gola polo listrada e bermuda amarela, nem aparentava ser um pescador. Mas, por trás de todas essas vestimentas, existe a história de antigo pescador.

De instantes em instante, “Moço, quanto está o quilo do pardo?”, “Senhor, quanto está o quilo do camarão?”, “Ei, quanto custa a boca de tubarão tigre?”, na prateleira de material que vende como artesanato, além de conchas e miniaturas de barcos. São estas e outras inúmeras falas que ecoam até o ouvido do Pereira, dono do box 38 no Mercado dos Peixes, em Fortaleza, e escuta todos os dias.

Barcos bocas de tubarões e conchas que são vendidos como artesanato por Pereira além da venda de peixes

É com o rosto calejado pelo o tempo de exposição ao sol em alto mar, e com o som do seu fiel companheiro – o mar – que ele conta como conheceu a pesca. “Foi por intermédio do meu avô e do meu pai. Na época, não existia outra atividade a não ser pescar”.

Ele nasceu na Prainha em Aquiraz, município vizinho à capital cearense. Foi lá que, ainda criança, Seu Antônio falou que um dos fatores por entrar cedo na pesca. “Via a dificuldade de meu pai em trazer peixe para casa, e pensei que poderia trazer um pouco mais para a nossa família. Aos 8 anos de idade me lancei ao mar”.

Após iniciar as atividades, como ressaltou tempos depois, ao completar 17 anos se mudou para Iguape, a 48 km de Fortaleza, onde continuou no Iguape trabalhando da pesca e constituiu família “Quando me mudei a rotina no Iguape era a seguinte. Acordávamos às 4 horas da manhã e formávamos um grupo grande de pescadores, para cada um se ajudar a ajeitar as jangadas e saímos por volta de 5 horas da manhã. Voltávamos por volta de 3 horas da tarde”. Do

Iguape, se mudou sozinho para Fortaleza quando tinha 25 anos. “Deixei minha mulher e meus 6 filhos no Iguape, mas como é tradição de pescador não trabalhar no domingo, aproveitava e ia visitá-los”. Curioso, perguntei os nomes de cada um dos filhos. “A mais velha é a Ana Cecilia, depois Antônia Lília, Antônio Neto, Danielle, Thiago e Jaqueline: Essa última se formou este ano em engenharia de pesca pela Universidade Federal do Ceará (UFC), revelou, todo orgulhoso do feito da filha caçula.

Cabacinho passou dois anos de idas e vindas entre Iguape e Fortaleza, onde morar num quartinho no bairro Castelo Encantado. Passando esse tempo, trouxe sua família para a capital. Comprou uma embarcação e alugou uma casa no mesmo bairro. Nenhum dos filhos de Antônio seguiu a profissão de pescador. Os dois homens ajudavam na venda do peixe no mercado. “Fiz o que pude. Dei alimentação, teto, estudo e o conselho para nenhum dos seis seguir a carreira de pescador. Pelos perigos do mar e pela má fama que esse profissional tem de ser chamado de mentiroso”, mas agradece por tudo que conquistou graças à profissão.

Dificuldades da Pesca

Curioso em saber se a pesca em alto mar é muito perigosa. Seu Antônio tratou logo de explicar e comparou a profissão com a de um jogador de futebol “O pescador vem a se aposentar com 60 anos de idade, mas, fisicamente, o considero como um jogador de futebol. Com 20 até 40 anos de idade ele pode ser considerado o rei do mar. Mas, quando chega aos 50, o mar nos domina e a gente perde as condições de trabalhar”. Falou também de outras perdas que teve com a profissão “Uma das primeiras coisas que perdemos é a nossa visão, os reflexos já não são mais os mesmos, a salinidade e a maresia tira totalmente a visão, um dos motivos no qual não incentivei os meus filhos a pescar”.

A atual esposa, Maria Claudete, confirma as dificuldades do pescador que já vem sofrendo com a diminuição da visão e passou a usar óculos. “Como ele falou, a perda da visão é a primeira coisa que acontece com eles. Ele antigamente não utilizava óculos, hoje não vive sem”. Mas, não deixa de elogiar o marido há 12 anos. “Muitos me olham torto quando digo que meu marido já foi pescador, mas não conhecem esse homem batalhador que ele é. Graças a ele, hoje moramos de frente para o mar, (na beira mar). Tudo graças aos seus peixes”.

Maria Claudete e Seu Antônio estão juntos há 12 anos

Com a dificuldade de enxergar e percebendo que não tinha forças para continuar a pescar. Antônio passou a vender em um dos boxes do antigo Mercado dos Peixes, antes da reforma, onde atualmente é dono do boxe 38 no último corredor do mercado. Passou de pescador a vendedor de peixe. “Peguei o início do mercado. Quando entrei ele tinha só 5 anos de existência”. Bem humorado, conta que criou amigos no mercado, mas que muitas vezes a rivalidade por ganhar dinheiro, com outros vendedores deixa o clima ruim no local. “Tenho um amigo aqui, o Marquinhos. Ele vende peixe no outro corredor. Com ele sei que posso contar para algo aqui no mercado e, quando posso, o indico aos meus clientes”.

Ao seu perguntado como era a sua convivência com Seu Antônio, Marcos ficou desconfiado. Ao saber que era o Cabacinho, abriu um sorriso de uma ponta a outra do rosto “O Cabacinho é demais. Um grande amigo que ganhei nesses meus 20 anos vendendo peixe aqui no mercado” Tanto Marcos quanto irmão de Marcos, Rogério, elogiam bastante o amigo do corredor ao lado.

Devoção

Seu Antônio é religioso. Na conversa vez ou outra puxava para a história de Jesus e comparava as atitudes e feitos do filho de Deus, segundo a Bíblia, como atitudes necessárias que um pescador deve ter “Jesus podia transformar toda a água em vinho, mas precisava que o homem enchesse as taças para ocorrer a transformação”. Com uma voz calma, Pereira falou que é devoto de São José, que é padroeiro do Ceará. “Sou católico e tenho um apego por São José. Quando é no seu dia, faço a procissão pelo mar juntamente com outros pescadores”.

Por fim, após relembrar sua origem no mar. “Trinta anos na pesca, muitas histórias eu já vi nesse mar. Só tenho a agradecer a ele, por tudo que conquistei e o sustento que pude dar à minha família”, diz agradecido. Da minha parte, lhe agradeço o tempo para conhecer a vida e a trajetória deste homem apaixonado pelo mar.

Texto e fotos: Victor Mendes (7º semestre – Jornalismo/UNI7)

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