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PERFIL: A guardiã das portas da Igreja Matriz de Tauá

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Reportagens

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Sempre de prontidão, há 30 anos Dona Mazinha abre o templo diariamente às 7 horas da manhã, e ainda ajuda nos festejos da Padroeira, símbolo da fé na peleja da vida no sertão

É início de mês. O dia no Município de Tauá está raiando. Os carros e motos começam a circular pelas ruas sinuosas. As “topiques” se empoleiram nas faixas reservadas e os moradores das adjacências do Sertão dos Inhamuns desembarcam apressados para receber salários, pagar boletos e fazer a feira do mês.

No cenário pacato da cidade, distante 344 km de Fortaleza, a figura de Maria Pereira da Silva não passa despercebida, em meio a tanta gente. Antes mesmo das sirenes nas escolas ecoarem pelos bairros, ela já está marchando em passos rápidos, descendo um dos trechos mais movimentados da cidade, para fazer seu trabalho de fé e devoção.

Mazinha, como é chamada carinhosamente por todos, desce a Avenida Odilon Aguiar, sem sequer tomar seu estimado copo de café preto. Trajando roupas de malha fria, debaixo de um sol arretado, a mulher negra, de cabelos curtos, chega ao Centro, pouco antes das 7 horas, para abrir as portas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. A capela é a mais antiga da cidade, construída durante a década de 1760, quando Tauá ainda era chamada de vila São João do Príncipe.

No ritmo de cidade pequena, os fiéis mais antigos resguardam a tradição de visitar diariamente o templo para fazer rezas, penitências e agradecimentos. Por isso, Mazinha repete diariamente a rotina de deixar o vento da caatinga e o sol a pino entrarem pelas mais de seis portas e dez janelas azuis espalhadas pela Igreja Matriz de Tauá. “A Mazinha é realmente uma figura. Ela está sempre sentada no parapeito de casa, ao lado da igreja”, papeia a bibliotecária Maria do Socorro Bezerra, entre conversas pelos corredores do Colégio Antônio Araripe.

Mazinha vê do parapeito antigo na entrada da casa, todo o movimento na região central de Tauá (Foto: Danielber Noronha)

Católica, devota de Nossa Senhora de Fátima, Mazinha assumiu a missão de abrir a igreja para a comunidade em 1988, quando um dos padres da época, a encarregou da tarefa. Hoje, 30 anos depois, a mulher ainda exerce a atividade sem nunca ter ganhado remuneração por encarregar-se do nobre ofício. “Faço porque gosto, me sinto muito bem. E vou continuar fazendo enquanto tiver vida aqui em cima da terra”, almeja, por entre suspiros esperançosos.

Durante muito tempo, o trabalho de Mazinha na igreja foi firmado apenas com base na confiança tida por parte dos padres e da Casa Paroquial, no compromisso verbal assumido pela ex-auxiliar de serviços gerais. Há pouco mais de três meses, contudo, a porteira foi reconhecida pela labuta e assinou papéis oficiais, garantindo permanência no ofício. Com um orgulho superior à timidez de sorrir, Mazinha conta que os documentos foram enviados à Diocese de Crateús, entidade responsável pela Paróquia de N. S. do Rosário.
Atualmente, às quartas-feiras são os únicos dias nos quais ela não precisa abrir a igreja no período matutino, pois uma nova missa começou a ser rezada recentemente, iniciada às 5 horas, com o “canto” do galo. Na parte da noite, também não fica encarregada de fechar as segundas e quintas-feiras, por conta da missa de finados e do encontro semanal do grupo Homens do Terço, respectivamente.

Para além do cargo de porteira, profissão exercida na maioria das vezes por homens, Mazinha está também prontamente à disposição da Igreja para diferentes atividades que, ao longo de três décadas, consagraram-na como apoio da comunidade católica em Tauá.

Quando os moradores das redondezas escutam sinos badalando fora da hora, é sinal de que mais um fiel se juntou ao pai, segundo a crença do catolicismo. O som do instrumento pesado é entoado para acompanhar o cortejo fúnebre de um cidadão tauaense, sendo conduzido ao Cemitério São Judas Tadeu, pela larga avenida que ladeia a Igreja Matriz. “Eu que bato no sino. Mas, é assim, faço quando a família daquele defunto vem me pedir. Não dá para fazer sempre, pois a família pode ter outra religião”, explica Mazinha com ares de cansaço.

Em outubro, Mazinha ganha outra ocupação. Parte para ser multitarefas dos festejos da Padroeira de N.S. do Rosário, celebração feita anualmente no mês de outubro. Durante o novenário, equivalente a nove dias, finalizados com missa, a mulher se prontifica a atuar nos bastidores ao longo dos dez dias de celebração e fé em homenagem à padroeira da cidade.

Os braços esguios e, muitas vezes, a falta de uma alimentação correta, não impedem Mazinha de ajudar na hora de alocar os bancos robustos de madeira na frente da Igreja. Junto da equipe, ela ajuda nos preparativos para as celebrações campais, que acontecem tradicionalmente do lado de fora, para atender a alta demanda de fiéis.

A Igreja Matriz de Tauá foi restaurada recentemente, ganhando novas cores para as paredes, portas e janelas (Foto: Danielber Noronha)

Por fim, ao longo de todos os dias da festa, Mazinha é incumbida de acender as brasas destinadas ao encerramento de cada celebração diária. As chamas são acesas em um fogareiro, objeto muito utilizado por famílias que não dispõem de fogão e botijão. Depois de queimados, o carvão em chamas é colado no turíbulo, utensílio usado para espalhar aromas de incensos entre os fiéis. “Quando cheguei, o padre Denilson me falou deste voluntariado. Apesar de não aparecer diretamente, nesta época é ela quem realmente realiza esse trabalho”, menciona Sebastião César, padre natural de Ipueiras, recém-chegado à paróquia tauaense.

A prática feita no fim do momento ecumênico é uma simbologia para levar as orações e preces dos fiéis aos céus, segundo as tradições católicas. “Faço tudo isso, mas não ganho nada aqui. O que ganho é muito mais do que se fossem me dar dinheiro, é a graça e a companhia de Jesus e de N.S. também”, enfatiza orgulhosa.

MEMÓRIAS EM RUÍNAS

Com mais de seis décadas vividas de muita luta, Maria Pereira não construiu somente relação com a igreja mais antiga de Tauá. Sem nunca ter casado ou tido filhos, é hoje o único registro vivo que permanece em uma casa visivelmente afetada pelo tempo. Antes senzala, em seguida, moradia familiar, e, por fim, escombro de uma construção que parou no tempo, enquanto Tauá evoluiu. É neste cenário degradante, que um dos casarões mais antigos da cidade, erguido ainda no século 18, se encontra atualmente. Entre lágrimas de pesar, Mazinha vê sua casa desmoronando pouco a pouco.

O antigo casarão tradicional na cidade, já se encontra com sinais evidentes da ação do tempo (Foto: Danielber Noronha)

Desempregada e em processo para conseguir aposentadoria, vive sozinha na casa que um dia foi símbolo de poder na aristocracia tauaense. A realidade atual, nem se assemelha aos tempos em que Mazinha mudou-se para a casa, quando podia ser chamada de arteira por suas estripulias. Ainda criança, em 1956, passou a viver no casarão com a família, trabalhando para uma família estimada na sociedade tauaense.

Aos 12 anos idade, recorda que a infância não foi fácil. Filha de mãe solteira, nunca soube o paradeiro do pai, e desde muito nova, teve que ajudar a mãe, Antônia Joana, nos afazeres de casa. Sem ressentimentos, ela reconhece que nunca foi criança.

Naquele tempo, lembra, tudo era muito diferente. A geladeira funcionava à base de querosene, as luzes da cidade eram apagadas sempre às 22 horas, e as ligações telefônicas tinham que ser feitas por intermédio da extinta Teleceará. A maioria das recordações do passado foi levada pelos filhos dos patrões de Mazinha, após o falecimento do casal.

Puxando pela memória, recorda que já faz mais de 20 anos que tudo aconteceu, e nenhum parente dos donos do casarão, a procurou para cumprir uma promessa deixada pelo casal ainda em vida. “Ainda antes da minha mãe falecer, eles (os patrões) chamaram todos os filhos aqui e pediram que fosse dada uma casa para minha mãe depois que eles morressem, mas isso nunca aconteceu”, relembra. Hoje, Mazinha luta na Justiça para ganhar o direito de ter a casa em sua posse.

A grande casa, com características arquitetônicas em Art décor, chama atenção na paisagem do Centro de Tauá. Separada da Igreja Matriz por uma estreita calçada, a casa, que um dia abrigou escravos, pertenceu primeiramente a um dos fundadores da cidade, o Coronel Lourenço Alves Feitosa, sesmeiro, que junto de sua mulher, Dona Vicencia de Souza Valle, doaram as terras para que fosse construída a Igreja Matriz.

A Fundação Bernardo Feitosa, responsável por abrigar o Museu Regional dos Inhamuns, guarda registros da época em que o casal redigiu a doação. Sem muito apego aos detalhes, os traços formam um mapa de uma terra quase inexplorada, no interior do sertão. “A grande casa foi começo da civilização em Tauá. As pessoas da época falavam que ela foi construída com cal batido e sangue de boi”, resgata Rosangela Alexandre Machado, assistente geral da Fundação há 10 anos.

A ação do tempo não permite mais o acesso a vários cômodos da grande casa. O primeiro a deixar de ser visitado foi a senzala, espaço construído aos fundos da casa, na parte subterrânea. Moradores relatam que três troncos grossos foram dispostos ao longo do cômodo, com correntes para que os negros fossem agredidos. A mais recente perda foi o chão da cozinha. Depois de uma forte chuva em fevereiro, deste ano, o piso do compartimento acabou sedento.

Mazinha tenta proteger o que pode, colocando lonas, e procura sempre podar as plantas espalhadas pelo pátio do casarão (Foto: Danielber Noronha)

Os cômodos ainda restantes e sem vida, acabam fazendo Mazinha relembrar o passado. “Foi praticamente aqui que vivi a vida toda. É muito triste saber que pode desabar, mas o que eu podia, já fiz. O velório da minha mãe foi aqui neste alpendre. Não queria jamais que isso se perdesse. Tenho fé de que ainda poderei fazer alguma coisa por esta casa”, desabafa.

Hoje, está sozinha no casarão. O irmão e sua família se mudaram para outra casa em um bairro próximo, e é nesta residência em que passa as noites, pois tem consciência de que não é mais seguro dormir em lugar de estrutura tão comprometido. As robustas portas de madeira já não protegem como antes, partes da murada já caíram por terra e o teto range ao menor sinal de ventania.

A solidão do casarão aproximou ainda mais Mazinha da fé. Todos dias, em um ato de completa demonstração de crença na religião, reza os terços da Misericórdia de Deus e de N.S. de Fátima. Estar sozinha em um momento tão difícil, também a fez ter sentido a presença de Deus. Segundo a devota, no momento em que mais precisou, recebeu um sinal. “Estava lá dentro chorando. Foi logo quando fiquei sozinha aqui. Acho que estava com começo de depressão. De repente vi uma luz. Era uma a luz de Cristo perto de mim”, reconta, com a voz embargada pela vontade de chorar.

É assim, apoiando-se na fé, que todos os dias, logo cedo, ela retorna ao casarão, abre as portas da igreja e senta no parapeito da casa colonial. Observa a dinâmica da cidade, enquanto sua vida permanece estática, ansiando por boas notícias, antes que sua história acabe entre as ruínas da antiga casa. “É a casa caindo lá atrás e eu vindo para frente”, completa Mazinha, já entre lágrimas de desgosto e solidão.

TEXTOS E FOTOS: Danielber Noronha (7º semestre – Jornalismo/UNI7)

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