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FELIPE ARAÚJO: A sobrevivência e afinidades com o jornalismo cultural

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Entrevistas

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O jornalista coloca em debate ideias, reflexões e críticas sobre o atual modelo praticado na imprensa brasileira

"Fui levado ao curso de Jornalismo por conta do meu interesse pelas artes, pelo mundo da cultura", relata Felipe Araújo (Foto: Arquivo Pessoal)

“Fui levado ao curso de Jornalismo por conta do meu interesse pelas artes, pelo mundo da cultura”, relata Felipe Araújo (Foto: Arquivo Pessoal)

O curso de Jornalismo prepara profissionais para atuar no Jornalismo Cultural? Esta e outras dúvidas pairam na mente do acadêmico de jornalismo quando o assunto é escolher o ramo cultural para especialização. Hoje, se questiona o congelamento de ideias e da difícil realidade do repórter e editor da área, ao se submeter para estar encaixado na linha editorial do caderno.

Para falar sobre o assunto, o Quinto Andar ouviu o jornalista Felipe Araújo, com atuação marcante na vida e na cultura local. Ele relembra como foi o início profissional trabalhando com jornalismo cultural. Relata como se encontrou neste segmento e mostra alguns entraves para quem está decidindo enveredar pelos caminhos culturais dos núcleos jornalísticos, principalmente no Ceará. Felipe é ex-editor do Caderno 3, do jornal Diário do Nordeste, e também do caderno Vida & Arte, do jornal O Povo. Atualmente é assessor de comunicação da deputada federal Luizianne Lins e acadêmico de Direito, na Faculdade 7 de Setembro (FA7).

Quinto Andar – Como decidiu trabalhar com o jornalismo cultural?
Felipe Araújo: Fui levado ao curso de Jornalismo por conta do meu interesse pelas artes, pelo mundo da cultura, enfim, ao longo do curso, houve esse encontro de afinidades. Procurei ler as obras das pessoas que eram referência no assunto e tive a sorte, em minha primeira experiência numa grande redação, trabalhar num suplemento literário, que era o antigo caderno Sábado, que o jornal O Povo editou entre 1996 e 2000. A partir daí fui trilhando o meu caminho dentro do jornalismo cultural.

Quinto Andar – Como analisa o jornalismo cultural e as principais diferenças de sua época para hoje?
FA: Minha geração passou por uma ruptura de paradigma muito grande. Tivemos uma reconfiguração do suporte e das tecnologias, então a gente teve que fazer essa travessia. Sou do jornalismo impresso e, naturalmente, acompanhei os efeitos dessa travessia com bastante proximidade, porque acho que esta área foi a mais afetada nesse sentido. Para o bem e para o mal. Portanto, a cultura tem uma perspectiva que leva mais tempo para se solidificar. Na verdade, a crise não é exatamente do jornalismo cultural. O jornalismo vai seguir seu caminho independente da fronteiras tecnológicas e, acredito que o jornalismo cultural também vai seguir. Ele cedeu muito a uma agenda de entretenimento, que empobreceu muito o potencial de saber e de formação que o jornalismo cultural traz consigo. Na tentativa de se igualar à internet, perdeu muito da sua natureza, gerando assim uma crise de identidade.

Quinto Andar – A tecnologia é o principal fator para o empobrecimento do jornalismo cultural?
FA: Não, muito pelo contrário. Acho que a tecnologia abre um novo horizonte, com muitas possibilidades de saberes. Fico imaginando o seguinte: em 1996, quando se fazia jornalismo, não tinha internet, Email e Google. Hoje, com um click você é capaz de fazer uma pesquisa que outrora levava uma manhã inteira. Por isso, acho que o jornalismo deve se adequar à essa nova forma aliando-se à tecnologia, porém sem perder a sua essência narrativa, investigativa e de experiência com o conhecimento.

Quinto Andar – Existe uma carência de estudos sobre o jornalismo cultural nas faculdades?
FA: Percebo que existe certo preconceito com o jornalismo cultural, sendo este tratado como um jornalismo de amenidades, de perfumaria, mas não é nada disso. O jornalismo cultural é mais difícil de ser feito, pois precisa ter um texto mais bem resolvido, não é um texto rígido como o do jornalismo factual. Ele exige uma formulação mais sofisticada do texto. Os recém-formados são bem capacitados tecnicamente, mas falta uma formação intelectual, além do curso. Quem quer lidar com o jornalismo cultural, tem que chegar à redação com um repertório considerável na literatura, no teatro, no cinema, nas artes plásticas. Cair de paraquedas nessa área não é o recomendado.

Quinto Andar – Cite um melhor e pior momento como repórter?
FA: Na verdade, o jornalismo é uma profissão apaixonante. Você tem alegrias cotidianas na profissão, mas também tem muitas frustrações. Saber lidar com essa dualidade é que faz com que o jornalista tenha sucesso. O jornalista não pode se furtar das polêmicas. Ele tem que saber lidar com a exposição do seu nome. O mais importante é saber lidar com isso.

Quinto Andar – Em que está trabalhando atualmente?
FA: Trabalho na assessoria parlamentar da deputada Luizianne Lins, como assessor de comunicação do seu mandato. Comecei neste ano. Sou um eterno curioso, por isso comecei a estudar Direito. Acredito que nos cursos de jornalismo deveriam ser colocadas pelo menos uma cadeira da área do direito, visando orientar o aluno quando for necessário expor tal conhecimento.

Quinto Andar – Fora agregar de valor, qual o seu objetivo em cursar Direito?
FA: Não sei ao certo. Voltei para o começo da fila novamente e é uma experiência intensa e interessante. O que eu desejo é articular esse novo conhecimento com a minha experiência no jornalismo.

Quinto Andar – Qual a sua visão sobre o segmento do jornalismo cultural no Ceará?
FA: Existem profissionais extraordinários nesse ramo, mas é um jornalismo que está aquém do que podia render. As empresas estão passando por dificuldades financeiras em função dessa transição tecnológica, todo mundo ainda está tateando no escuro e, nesse processo, a primeira área a sofrer é o ramo da cultura. O jornalismo ao invés de aproveitar esse momento para se afirmar, vai ficando cada vez mais dependente de uma agenda de entretenimento, que empobrece muito a área, sobretudo, pelos profissionais que existem. O modelo de produção jornalística no Ceará é muito cruel com o jornalista cultural, com os produtores e consumidores de cultura.

Quinto Andar – Que recado deixa aos alunos que querem ingressar no jornalismo cultural?
FA: O jornalismo em geral é uma profissão que não lhe permite descanso. Um bom jornalista é jornalista 24 horas por dia. Tudo pode se tornar uma pauta, uma ideia de reportagem. No jornalismo cultural isso é muito mais evidente. Se você não está na redação, mas está lendo um livro, um romance, assistindo a um filme, isto fará com que você tenha mais experiência e adquira mais capacidade para debater ou escrever sobre os assuntos mais diversos. O jornalismo cultural não é uma área fácil, volto a dizer, não é perfumaria.

Janaina Ramos
4º Semestre

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