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OPINIÃO: “Vixe”, o estereótipo bairrista que insiste em excluir

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O caso de zombaria sofrida pelo Pastor Simões mostra a persistência de antigos estigmas violentos direcionados ao Bom Jardim

Como se constrói um estereótipo? Pegue um evento recorrente ligado àquilo que pretende estigmatizar, abuse da generalização, deixe de lado qualquer análise profunda que exponha o contraditório e faça questão de compartilhar como verdade absoluta, mesmo que no verniz da brincadeira. Agora, como se destrói um estereótipo? Bom, tenha como exemplo o caso ocorrido na última quinta, 20, no debate dos candidatos ao Senado Federal realizado na UNI7.

Pastor Jamieson Simões, do PSOL, interrompeu sua apresentação inicial para defender o bairro onde mora de zombarias por parte do público, sendo ovacionado em seguida (Foto: Matheus Abrahão)

Durante as apresentações iniciais de cada integrante da mesa, o pastor Jamieson Simões (PSOL) teve que interromper seu discurso para defender o bairro onde mora, o Bom Jardim, de chacotas proferidas por parte do público do Teatro Nila Gomes de Soárez, onde era realizado o evento. Incomodado com os “vixe” emitidos por alguns espectadores, Jamieson foi certeiro: “Vixe não! O Bom Jardim é lugar de gente séria, trabalhadora, honesta e merece respeito”. Merecidamente foi ovacionado.

É de se questionar, no entanto, como uma provocação batida como essa consegue adentrar dentro do ambiente universitário, lugar de construção intelectual e desconstrução de barreiras reacionárias. Que contribuição daremos à sociedade se reproduzimos comportamentos que retardam a inclusão social?

Quem mora no bairro sabe que isso não foi um caso isolado. A interjeição “vixe” é costumeiramente utilizada para expor o espanto de alguém ao saber certa pessoa mora no bairro. Desde o começo dos anos 90, o Bom Jardim sempre foi retratado como um bairro violento e mal desenvolvido. Grande parte dessa fama foi fruto da colaboração de jornais e programas policialescos, noticiando que “mais uma morte é registrada no Grande Bom Jardim”.

Quando se trata não só do Bom Jardim, mas de outros bairros da periferia de Fortaleza, o “vixe” proferido é mais que zombaria. É reação imunológica. Repele a adoção do problema por todos que moram na capital. Não permite adentrar na problemática da falta de garantia dos serviços básicos (saúde, educação, segurança, lazer, transportes) aos mais necessitados. Distancia a periferia do centro das discussões sobre o bem estar da cidade.

Os moradores, as articulações sociais e demais exemplos de cidadania que o Bom Jardim oferece são anuladas quase que por completo. As ferramentas de combate à desigualdade estão lá (escolas, centros culturais, coletivos urbanos, organizações da sociedade civil), mesmo em uma quantidade que não cobre todo o território do bairro e suas adjacências. Ainda que competentes, não suprem todo o vazio deixado pela gestão pública.

Fortaleza sofre hoje com o assassinato de seus jovens, sendo 414 casos registrados no ano passado pelo Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CCPHA). Bom Jardim e Jangurussu apresentam os maiores índices: 31 mortes em cada bairro. Em tempos onde nossa juventude tem a vida cronometrada pela violência, o descaso dos nossos representantes políticos, incapazes de frear as estatísticas, deveria ser o alvo do “vixe”. É a repetição do velho mantra politicamente correto: “zombe do opressor, não do oprimido”.

TEXTO: Jonathan Silva (6º semestre – Jornalismo/UNI7)
FOTOS: Matheus Abrahão (3º semestre – Jornalismo/UNI7)

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